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Minha coluna no mês das mulheres poderia começar com uma celebração. Com uma homenagem. Mas a minha forma de homenagear as mulheres é outra: é dar voz ao que a gente vive. É não deixar passar em branco o que tantas vezes é silenciado.

Não dá para falar de ser mulher sem falar do que a gente vive. Não dá para falar de leveza ignorando o peso. Os números são altos. As histórias são muitas. Violência, abuso, desrespeito, silenciamento. Em diferentes formas e em diferentes espaços, nós aprendemos cedo a nos proteger, a nos adaptar, a endurecer.

E talvez uma das dores mais silenciosas seja essa: o quanto, para sobreviver, a gente precisa se afastar de si e criar armaduras. Viver em estado constante de alerta não é só emocional. É fisiológico.

O corpo aprende. O sistema nervoso registra. Muitas mulheres vivem com o sistema nervoso simpático constantemente ativado, em estado de luta ou fuga como se o perigo estivesse sempre à espreita. É um estado de defesa, de antecipação, de controle.

Um corpo que não relaxa, uma mente que não desacelera, um mundo que não para

O resultado é um corpo que não relaxa, uma mente que não desacelera, ansiedade crônica, uma sensação constante de tensão mesmo quando, aparentemente, está tudo bem. E é aqui que algo essencial começa: a necessidade de se reconectar com o corpo como um lugar seguro.

O yoga, nesse contexto, deixa de ser estética ou performance. Ele se torna uma ferramenta de regulação do sistema nervoso, de reconstrução interna, de retorno a si. Respirar com consciência, sustentar o próprio corpo, perceber limites, criar espaço — tudo isso comunica ao organismo que ele pode sair do estado de sobrevivência. Que é possível, aos poucos, relaxar.

Quando ativamos o sistema nervoso parassimpático, responsável pelo descanso e recuperação, o corpo entende que não está mais em perigo. E só quando o corpo se sente seguro, a mente desacelera. E só quando a mente desacelera, a gente consegue voltar para si.

Mas existe também uma camada ainda mais profunda. Falar de energia feminina não é falar de fragilidade. É falar de sensibilidade, intuição, escuta, presença emocional, fluidez — qualidades que foram, por muito tempo, desvalorizadas.

Muitas mulheres aprenderam a sobreviver desconectadas disso. E sobreviver não é o mesmo que viver. Talvez o caminho não seja endurecer mais. Talvez seja, aos poucos, voltar para dentro com consciência. Criar espaços de pausa. De respiração. De presença.

Movimentar e cuidar do corpo e da mente como quem honra o privilégio que é estar viva. Porque o mundo pode não ser gentil. Mas a forma como você se trata pode ser.

E isso não muda o mundo de fora imediatamente. Mas muda completamente a forma como você se sustenta e vive dentro dele.


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autoria

Foto de Esther Bruno

Esther Bruno

Colunista

Advogada de formação, é professora de yoga especializada em biomecânica e pós-graduanda em Neurociência. Criadora da plataforma BE, desenvolve experiências, retiros e vivências que integram movimento,...
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