Os livros de colorir, tradicionalmente ligados ao universo infantil, ganharam novo protagonismo em 2025 ao se tornarem os títulos mais vendidos do varejo editorial brasileiro. O dado chama atenção não apenas pelo volume de exemplares comercializados, mas também pelo perfil do público. Crianças seguem presentes, mas adultos e idosos passaram a adotar a prática como parte da rotina, principalmente em um contexto marcado pelo excesso de tempo em redes sociais e telas digitais.
Quatro dos cinco livros mais vendidos no país no último ano pertencem a uma mesma coleção de colorir, segundo a Lista Nielsen-PublishNews de Mais Vendidos. Para se ter ideia, esses títulos ultrapassaram a marca de 1,5 milhão de exemplares vendidos, considerando livrarias, e-commerces e supermercados. O desempenho indica uma mudança no comportamento de consumo e reforça o interesse por atividades analógicas em meio à rotina conectada.
Além disso, o crescimento desse tipo de publicação dialoga com discussões atuais sobre saúde mental, atenção e necessidade de pausas. Ao contrário de outros conteúdos de consumo rápido, os livros de colorir propõem uma experiência contínua, sem notificações ou estímulos externos, o que contribui para seu apelo entre diferentes faixas etárias.
O excesso de telas e a busca por alternativas analógicas
O aumento do tempo de exposição a telas é uma realidade para grande parte da população. Trabalho remoto, redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de entretenimento ocupam boa parte do dia. Nesse cenário, atividades que não envolvem dispositivos eletrônicos passaram a ser vistas como uma forma prática de reorganizar a rotina.
Colorir exige atenção visual, coordenação motora e permanência em uma única tarefa por um período determinado. Ao mesmo tempo, elimina a necessidade de alternar entre aplicativos, responder mensagens ou acompanhar atualizações. Esse afastamento temporário das telas é um dos fatores que explicam a adesão crescente à prática.
Além disso, ao contrário do consumo digital, que costuma ser fragmentado, o ato de colorir favorece uma experiência mais linear. Não há estímulos inesperados nem comparação com outras pessoas, como ocorre nas redes sociais. Isso cria um ambiente mais previsível, o que ajuda a reduzir a sensação de sobrecarga informacional.
Para muitos adultos, esse tipo de atividade passou a ocupar espaços antes preenchidos pelo uso automático do celular, como intervalos no trabalho, momentos antes de dormir ou períodos de descanso no fim de semana.
O que a atividade de colorir provoca no corpo
Durante o ato de colorir, o corpo entra em um estado associado à diminuição do ritmo fisiológico. A atividade estimula o sistema nervoso parassimpático, responsável por respostas ligadas à sensação de calma. Esse sistema atua na redução da frequência cardíaca e na diminuição da tensão corporal.
Tarefas manuais repetitivas também favorecem a liberação de neurotransmissores associados ao prazer, o que contribui para uma sensação de satisfação ao longo da atividade. Esse processo ajuda a explicar por que muitas pessoas relatam bem-estar após períodos dedicados à pintura, mesmo sem objetivo estético definido.
Outro ponto é o nível de exigência cognitiva. Colorir não demanda tomadas de decisão complexas nem esforço intelectual intenso, mas mantém a atenção ativa. Essa combinação cria uma pausa funcional, diferente tanto do descanso passivo quanto de atividades que exigem alto desempenho mental.
Do público infantil ao adulto: quem está usando livros de colorir hoje
Embora as ilustrações remetam a personagens e cenas delicadas, o público consumidor dos livros de colorir se diversificou. Adultos passaram a adotar os títulos como parte de rotinas de autocuidado, enquanto idosos encontram na atividade uma forma de manter a atenção e a coordenação motora.
Uma das coleções que lideraram as vendas em 2025 foi criada por uma artista visual norte-americana e apresenta cenas com animais em atividades cotidianas. O traço detalhado e a repetição de elementos favorecem sessões prolongadas de pintura, o que atrai leitores que buscam uma atividade estruturada, mas sem caráter infantil.
No Brasil, esses livros ganharam espaço tanto em livrarias quanto em redes sociais, impulsionados por recomendações espontâneas e pela circulação de vídeos que mostram o processo de colorir.
Esse movimento acompanha uma valorização mais ampla de atividades manuais, como bordado, cerâmica e jardinagem, que também envolvem processos repetitivos e foco prolongado.
Como transformar o hábito de colorir em um ritual diário
Para que o ato de colorir se mantenha ao longo do tempo, muitas pessoas optam por transformá-lo em um ritual. Isso não exige mudanças complexas na rotina, mas a definição de um momento específico do dia para a atividade.
Reservar de 15 a 30 minutos já é suficiente para criar uma pausa consistente. Escolher um local com boa iluminação e poucos estímulos externos contribui para a concentração. Manter o celular fora do alcance ajuda a evitar interrupções e reforça o afastamento das telas.
A escolha dos materiais também influencia a experiência. Canetas hidrográficas ou lápis confortáveis tornam o processo mais fluido e aumentam a disposição para continuar. Não há necessidade de buscar resultados visuais específicos, já que o valor da prática está no tempo dedicado à atividade.
Com o tempo, esse ritual passa a funcionar como um marcador na rotina, ajudando a organizar o dia e a criar intervalos mais definidos entre tarefas.
Livros de colorir: um fenômeno que reflete mudanças de comportamento
Por fim, o sucesso dos livros de colorir em 2025 vai além dos números de venda. Ele indica uma mudança na forma como diferentes gerações lidam com o tempo, o foco e o excesso de estímulos digitais. Em vez de buscar apenas soluções tecnológicas, parte da população tem recorrido a práticas analógicas para equilibrar a rotina.
Em um ano em que livros de colorir lideraram o varejo editorial, algo chama atenção: eles exigem presença, mas não oferecem estímulo novo. Não informam, não notificam e não recompensam com engajamento. Ainda assim, venderam mais de um milhão de exemplares. Talvez a pergunta não seja por que as pessoas estão colorindo, mas o que elas estão tentando silenciar quando escolhem essa atividade.



