No ritmo acelerado da vida moderna, onde o tempo se tornou um recurso escasso e a busca por estabilidade financeira domina a rotina, o ato de cultivar laços afetivos tem se transformado em um privilégio. A ideia de ter tempo livre para encontrar amigos, conversar com a família ou passar horas sem preocupações com quem se ama, algo que deveria ser acessível a todos, parece estar distante para uma parcela da população brasileira.
É uma realidade complexa, sobretudo em um país onde a saúde é uma das grandes preocupações, conforme apontou a pesquisa “What Worries the World” da multinacional de pesquisa e consultoria de mercado Ipsos. Para 32% dos brasileiros, a saúde é um tema central, superando a média global de 23%. Mas, ao falar de saúde, estamos nos referindo apenas a hospitais, medicamentos e academias? Ou o bem-estar mental, social e emocional também entram na conta?
O cuidado com a saúde mental e emocional tem ganhado visibilidade, mas o acesso a ele nem sempre é democrático. Enquanto a população de alta renda pode pagar por terapias, turismo do sono para descansar, retiros de bem-estar e atividades de lazer que promovem o relaxamento, uma grande parte da sociedade enfrenta barreiras invisíveis que dificultam até mesmo a conexão com outras pessoas.
A dificuldade de cultivar laços afetivos em meio a longas jornadas de trabalho
O que acontece é que a vida de quem enfrenta jornadas de trabalho extenuantes, tem a renda comprometida com as despesas básicas e precisa lidar com a logística de uma família, a energia e o tempo para priorizar amizades e manter laços familiares podem não existir. Afinal, cada minuto é otimizado para a sobrevivência e o lazer, o encontro social ou o ato de sentar para conversar se tornam privilégios.
Para quem se desdobra em jornadas duplas para fechar as contas do mês, o tempo livre não é para socializar, mas para descansar o corpo exausto. O afeto, que deveria ser um pilar de apoio, passa a ser um luxo acessível apenas para aqueles que podem se dar ao tempo para investir nele. Isso cria um ciclo vicioso: a falta de tempo leva à falta de afeto, que, por sua vez, impacta a saúde mental e a capacidade de lidar com as pressões do dia a dia.
A pandemia intensificou essa percepção. O isolamento social mostrou o quanto cultivar laços afetivos é essencial, mas a recuperação pós-pandemia não eliminou as desigualdades sociais que já existiam. Muitos brasileiros voltaram à mesma rotina de sobrecarga e o afeto continua sendo algo para se encaixar em meio a longas listas de afazeres.
A discussão sobre o afeto como artigo de luxo e a dificuldade de cultivar laços afetivos nos convida a questionar o que valorizamos como sociedade. É uma provocação para refletir sobre o ritmo de vida que levamos e as estruturas que fazem com que o cuidado emocional seja um privilégio.



