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A cena pode parecer curiosa para quem passa desavisado pelo Lago Michigan, em Chicago, nos Estados Unidos, em um domingo à noite: centenas de pessoas reunidas, respirando fundo, rasgando papéis e, logo depois, soltando gritos que ecoam pelo espaço aberto. Mas não se trata de protesto nem de evento esportivo. É o clube do grito (scream club em inglês), um movimento que nasceu de forma despretensiosa e se transformou em um ritual semanal de bem-estar, acolhimento e conexão comunitária.

O projeto começou pequeno. O casal Manny Hernandez e Elena Soboleva, cansados da rotina acelerada e da pressão diária, decidiu se encontrar no lago para extravasar. O que poderia ter sido apenas um hábito entre dois parceiros acabou chamando atenção de amigos, depois de vizinhos, e, pouco a pouco, ganhou vida própria. Hoje, o grupo reúne cerca de 200 participantes por semana, em encontros que mesclam respiração, escrita, gritos e abraços.

Clube do grito como ritual de liberação

A dinâmica é simbólica. Às 19h, o grupo se posiciona na margem do lago. Antes do primeiro grito, há uma pausa para um exercício de respiração coletiva, uma espécie de preparação para o que virá. Em seguida, cada participante escreve em um pedaço de papel biodegradável as ansiedades, frustrações ou tensões acumuladas ao longo da semana. Esses papéis são lançados na água, em um gesto que simboliza deixar ir o que pesa.

Só então começa a sequência de gritos. Os organizadores explicam que há uma progressão: primeiro vêm os “gritos de aquecimento”, mais curtos e contidos; depois, gradualmente, o volume e a intensidade aumentam, até alcançar os chamados “gritos primitivos”, quando a voz sai sem filtro, carregada de emoção. O encontro se encerra com abraços e cumprimentos entre os presentes, reforçando a ideia de que ninguém está sozinho em seus desafios.

A prática funciona como uma válvula de escape para o estresse da vida moderna

Mais do que um espaço para extravasar, o clube do grito se tornou um ponto de encontro comunitário. Pessoas de diferentes idades e perfis chegam ao lago em busca de um momento de catarse coletiva. Para muitos, a prática funciona como uma válvula de escape para o estresse da vida moderna. Para outros, é uma oportunidade de se conectar com desconhecidos em um ambiente livre de julgamentos.

O ato de gritar, em um contexto seguro e controlado, ativa respostas físicas que ajudam a aliviar a tensão muscular e a reduzir níveis de estresse. Já o componente social, estar em grupo, compartilhar experiências e rituais, reforça sentimentos de pertencimento, algo essencial para o bem-estar psicológico.

Além disso, o clube do grito é gratuito, sem necessidade de inscrição prévia ou pré-requisitos. Basta aparecer no horário marcado, disposto a soltar a voz. Para os organizadores, a abertura é parte fundamental do movimento: qualquer pessoa pode se juntar, seja para gritar com força ou apenas para observar.

No fim das contas, mais do que um espetáculo curioso, a cena dos gritos à beira do Lago Michigan fala sobre algo universal: a necessidade humana de extravasar, se conectar e encontrar formas criativas de lidar com a pressão do cotidiano. Em Chicago, essa necessidade encontrou um palco sonoro e comunitário. E, pelo que tudo indica, o grito coletivo veio para ficar.


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autoria

Foto de Laís Siqueira

Laís Siqueira

Jornalista

Jornalista e pós-graduada em Marketing, gosto de pesquisar, descobrir histórias e traduzir conceitos complexos em conteúdos que façam sentido. Sou movida pela curiosidade e pelo interesse em explorar o universo...
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