A busca por um corpo magro ocupa hoje um espaço maior no imaginário brasileiro do que objetivos tradicionalmente associados à felicidade, como viajar ou conquistar estabilidade financeira. Uma análise de buscas online mostra que o termo emagrecer foi digitado cerca de 112 mil vezes em uma amostragem, número muito superior a viajar, com aproximadamente 36 mil pesquisas, e ficar rico, que aparece com cerca de 2,3 mil. Os dados, levantados pela consultoria de marketing digital SEMRush, ajudam a ilustrar a relação do país com o peso que ultrapassa o campo estético e se aproxima de um desejo coletivo, reforçado por tendências digitais, produtos para perda de peso e uma cultura que associa magreza à aceitação social.
A priorização do emagrecimento se reflete também no interesse por medicamentos. Segundo o Ipsos Health Service Report 2025, 58% dos brasileiros dizem conhecer as canetas emagrecedoras, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, percentual acima da média global de 36%. O Brasil fica atrás apenas dos Estados Unidos (74%), Canadá (70%) e Holanda (66%), o que mostra que a discussão sobre remédios para emagrecer entrou no cotidiano, nas rodas de conversa e nas timelines. A popularização aconteceu de forma acelerada, impulsionada por celebridades, relatos de perdas rápidas de peso e uma sensação de facilidade que contrasta com dietas extensas e rotinas rígidas.
O imediatismo pode atrapalhar o processo de emagrecer
Especialistas em comportamento alimentar alertam que a facilidade de acesso a medicamentos e conteúdos que prometem resultados rápidos podem reforçar expectativas irreais sobre o corpo. Embora remédios com ação em GLP-1 tenham indicação médica importante em casos específicos, como obesidade e diabetes tipo 2, o uso sem acompanhamento pode gerar efeitos adversos e criar uma relação frágil com a alimentação. O imediatismo, nesse contexto, se torna parte do problema. A pressão social para emagrecer rápido pode incentivar automedicação, dietas restritivas e uma rotina guiada mais por culpa do que por saúde.
A dinâmica se agrava porque a cobrança estética começa cedo e se intensifica nas telas. Crianças e adolescentes crescem ouvindo comentários sobre peso, e o corpo ideal aparece como parâmetro de beleza em programas, anúncios e redes sociais. Na fase adulta, filtros, comparações e métricas visíveis de antes e depois mantêm o tema em evidência. Essa repetição dificulta incorporar a ideia de que existem corpos diferentes e que saúde não é sinônimo exclusivo de magreza. Quando o peso vira medida de valor pessoal, a relação com a comida tende a perder naturalidade, comidas viram “permitidas” ou “proibidas” e refeições passam a ser avaliadas com culpa e recompensa.
Consequências desse cenário já aparecem, inclusive, no consultório de profissionais de saúde mental. A busca intensa pela magreza pode evoluir para transtornos alimentares, maior ansiedade nas refeições, ciclos de compulsão seguidos de restrição severa e isolamento social para evitar situações que envolvam comida. A alimentação, que deveria ser parte do cotidiano, torna-se um campo de vigilância. Nesses casos, o que está em jogo não é apenas o corpo físico, mas imagem corporal, autovalorização e o quanto a pessoa sente que precisa se adequar para ser aceita.
Os brasileiros e a valorização da magreza
Apesar desse contexto, há caminhos possíveis que não passam por abandonar o desejo de emagrecer, mas por ampliá-lo. O movimento de discutir saúde de forma mais completa ganha força quando inclui, por exemplo, sono, rotina alimentar equilibrada, prática física gradual, saúde emocional e relação mais consciente com o próprio corpo. Portanto, quando o emagrecimento deixa de ser o único objetivo e passa a ser apenas uma possibilidade dentro de um conjunto maior de cuidados, a pressão diminui e o processo se torna menos punitivo. O debate sobre padrões corporais também avança quando há mais representações diversas na mídia, mais conversas sobre autoestima e mais incentivo ao acompanhamento profissional quando houver intenção de usar medicamentos ou iniciar dietas.
Falar sobre o valor que o brasileiro atribui à magreza é compreender como as expectativas sociais moldam comportamentos e escolhas. Os dados mostram que o emagrecimento está no topo das buscas e no cotidiano de milhões de pessoas, mas evidenciam também a necessidade de refletir sobre o impacto dessa centralidade na saúde física e mental. Em resumo, em um país que conhece produtos para perder peso e busca resultados rápidos, o desafio passa por construir uma relação mais equilibrada com o corpo, a comida e a própria imagem. O peso pode ser uma preocupação, mas a saúde precisa continuar sendo o centro da conversa.



