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O Carnaval é um dos momentos mais aguardados do ano. Ruas cheias, música alta, encontros entre amigos e desconhecidos fazem parte do cenário. Ao mesmo tempo, a festa também expõe tensões que atravessam o convívio social, sobretudo quando o assunto é assédio. Falar sobre consentimento nesse contexto não é restringir a alegria, mas criar condições para que mais pessoas consigam aproveitar o evento com segurança emocional.

Em eventos de grande aglomeração, como blocos de rua e festas abertas, a noção de limite pode se tornar difusa. Entretanto, do ponto de vista da saúde mental, respeitar o consentimento é um fator ligado ao bem-estar individual e coletivo. Ambientes em que as pessoas se sentem respeitadas tendem a gerar menos estresse, menos medo e maior sensação de pertencimento. Por isso, discutir assédio no Carnaval também é discutir saúde pública.

Consentimento como base para uma festa segura

O debate sobre assédio costuma partir da frase “Não é não”, que segue sendo necessária. Ainda assim, profissionais da área de saúde mental apontam que o consentimento vai além da ausência de recusa. “Ele envolve uma concordância consciente e mútua. Ou seja, o contato só é aceitável quando há um “sim” expresso, verbal ou comportamental, sem pressão”, explica a psicóloga Maria Eduarda Couto.

No Carnaval, a embriaguez altera a percepção, reduz a capacidade de julgamento e compromete a autonomia. Uma pessoa alcoolizada não consegue consentir de forma plena, o que invalida qualquer tentativa de aproximação física ou sexual. Esse ponto é tanto uma questão ética quanto legal.

Outro aspecto minimizado é o respeito ao espaço pessoal. Gestos como puxar alguém pelo braço, abraçar sem permissão ou tentar beijar à força não fazem parte de uma interação consensual. Pelo contrário, são experiências que geram sensação de invasão e quebra de segurança psicológica. Em ambientes lotados, preservar esse limite é fundamental para evitar que a festa se transforme em um espaço de tensão.

A psicóloga Maria Eduarda diz que “o consentimento funciona como um acordo emocional. Quando ele não existe, o corpo reage com alerta, mesmo que a pessoa não consiga expressar isso naquele momento. Esse estado de alerta contínuo impacta a saúde mental”.

Também é importante reforçar que o figurino não comunica intenção. Fantasias curtas, temáticas ou criativas não autorizam qualquer tipo de toque. A forma como alguém se veste não elimina o direito ao próprio corpo.

Os efeitos do assédio na saúde mental durante o Carnaval

Apesar de muitas vezes ser tratado como algo menor, o assédio tem consequências psicológicas. Uma delas é a hipervigilância. “Pessoas que já passaram por situações de assédio tendem a ficar em estado constante de alerta, observando movimentos, olhares e aproximações. Isso dificulta o relaxamento e aumenta níveis de ansiedade e estresse ao longo do evento”, afirma a psicóloga.

Além disso, o Carnaval pode funcionar como um gatilho para quem já viveu episódios de violência. Sons altos, contato físico involuntário e a sensação de perda de controle do espaço podem reativar memórias traumáticas. Nesses casos, o impacto não se restringe ao momento da festa, podendo se estender por dias ou semanas.

Outro ponto é o sentimento de exclusão. Quando o assédio se repete, determinados grupos passam a evitar espaços públicos como forma de autoproteção. “Mulheres e pessoas LGBTQIA+ são as mais afetadas. A consequência disso é a redução do acesso ao lazer, à convivência social e ao direito de ocupar a cidade”, pontua a psicóloga.

De acordo com ela, “quando alguém deixa de ir a um bloco ou festa por medo, não estamos falando apenas de diversão perdida. Estamos falando de restrição de circulação e de impactos diretos na autoestima e no senso de pertencimento”.

O papel do espectador ativo no cuidado coletivo

Promover saúde mental no Carnaval passa por uma responsabilidade compartilhada entre todas as pessoas que ocupam esses espaços. A ideia de espectador ativo ganha força por incentivar uma rede de cuidado compartilhada. Isso significa que qualquer pessoa pode contribuir para tornar o ambiente mais seguro.

A intervenção não precisa ser confrontacional. Em muitos casos, abordagens delicadas ajudam a interromper situações de desconforto. Perguntar se a pessoa está bem, se precisa de ajuda ou até fingir que a conhece são estratégias usadas para quebrar a interação indesejada sem gerar conflito direto.

Entre grupos de amigos, combinar sinais ou códigos prévios também pode ser útil. Um gesto, uma palavra ou uma mensagem pode indicar que alguém se sente acuado e precisa sair dali. Esse tipo de acordo fortalece a sensação de apoio e reduz o sentimento de solidão em situações difíceis. “Saber que há alguém atento ao redor diminui a sensação de desamparo. O cuidado coletivo funciona como um fator de proteção emocional”, reforça a psicóloga.

Além disso, respeitar um “não” dito por outra pessoa também faz parte desse papel. A insistência, mesmo sem contato físico, é uma forma de assédio e deve ser interrompida imediatamente.

Estruturas de apoio e canais de denúncia disponíveis para quem sofrer assédio no Carnaval

No Carnaval, muitas cidades contam com postos de acolhimento, delegacias móveis e equipes de apoio psicossocial espalhadas pelos blocos. Esses espaços oferecem, por exemplo, orientação, escuta e encaminhamento em casos de violência ou assédio.

Em situações mais graves, é indicado acionar os canais oficiais. O número 190 deve ser usado em casos de emergência. Já o 180, Central de Atendimento à Mulher, funciona 24 horas e oferece orientação, registro de denúncias e encaminhamento para serviços de proteção.

Após um episódio de assédio ou violência, buscar apoio psicológico também é recomendado. A terapia ajuda a elaborar a experiência, reduzir sintomas de ansiedade e evitar que o trauma se prolongue. Coletivos e grupos de acolhimento também podem oferecer suporte emocional e troca de vivências, o que contribui, inclusive, para a recuperação.

Falar sobre assédio e consentimento no Carnaval é, portanto, uma forma de ampliar o acesso ao bem-estar. Quando limites são respeitados, mais pessoas conseguem ocupar o espaço público com tranquilidade. E uma festa que cuida da saúde mental de quem participa tende a ser mais segura, mais inclusiva e mais saudável para todos.


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