Respirar fundo, alinhar a postura e simplesmente estar presente. Essa é a proposta do zazen, uma prática de meditação originária do budismo zen japonês que vem ganhando cada vez mais espaço fora dos mosteiros e templos tradicionais. O termo em si já dá pistas sobre sua essência: em japonês, za significa sentar e zen remete à meditação. Em outras palavras, é uma filosofia que convida ao silêncio interior em meio ao barulho da vida moderna.
No zazen, não há mantras a serem repetidos nem imagens para se concentrar. O praticante senta-se com as costas eretas, a respiração calma e os olhos suavemente entreabertos. Os pensamentos, inevitáveis, surgem na mente, mas a ideia não é lutar contra eles nem segui-los. Apenas deixar que passem. É nessa experiência de “apenas sentar” que está a essência da prática.
Atualmente, comunidades zen-budistas têm se espalhado pelo mundo, e o Brasil já abriga retiros dedicados à prática. Recentemente, Salvador, na Bahia, recebeu um retiro de meditação zen entre os dias 15 e 17 de agosto, promovido pela Comunidade Taikanji. O encontro teve como guia o Monge Enjo Sensei, que iniciou seu treinamento monástico em 1995 com a reconhecida Monja Coen Roshi, uma das principais referências do zen-budismo.
Durante o retiro, os participantes vivenciaram práticas inspiradas na rotina dos mosteiros japoneses, onde o zazen ocupa papel central. A ideia é criar uma atmosfera que favoreça a disciplina, a atenção plena e, ao mesmo tempo, um contato profundo com o próprio silêncio.
Como praticar zazen
Embora retiros e encontros em grupo ofereçam um ambiente propício, o zazen também pode ser experimentado em casa. As recomendações tradicionais vêm de um texto clássico chamado Fukanzazengi, escrito por Mestre Dogen Zenji, fundador da Escola Soto Zen. Ele orienta que o praticante encontre um lugar tranquilo, sente-se sobre um zafu (almofada redonda) na posição de lótus, meio-lótus ou em uma cadeira, se necessário.
As mãos repousam sobre o colo em um gesto chamado hokkai join ou mudra cósmico. A coluna deve permanecer ereta, o queixo levemente recolhido, os olhos entreabertos e a respiração fluir suavemente pelo nariz.
Por que praticar?
Meditar com regularidade pode trazer efeitos que vão muito além da sensação imediata de calma. Estudos apontam benefícios como a redução do estresse, melhora na concentração e impactos positivos na saúde física, como o controle da pressão arterial. Mas há evidências de que os efeitos podem ir ainda mais longe: a meditação regular pode retardar o processo de envelhecimento.
De acordo com uma pesquisa publicada na revista Biomolecules, pessoas que mantêm a meditação por longos períodos entre 12 e 40 anos apresentaram menor atividade de genes ligados à inflamação e ao envelhecimento, níveis mais baixos de cortisol (o chamado hormônio do estresse) e maior preservação das funções cognitivas mesmo em idades avançadas.
Os pesquisadores também observaram que esses praticantes de longo prazo demonstram mais equilíbrio emocional e menor impacto do estresse crônico sobre o organismo. No caso do zazen, esses efeitos se somam a uma dimensão filosófica própria: não se trata apenas de relaxar, mas de cultivar presença e aceitação, sem tentar controlar os pensamentos.
Aos poucos, retiros e encontros zen vão se espalhando por diferentes cidades, criando novas oportunidades de contato com essa tradição. Seja em um templo, em uma comunidade zen ou mesmo em casa, o zazen se apresenta como uma prática acessível, que exige apenas disposição para parar por alguns minutos.
Na pressa do dia a dia, essa forma de meditar pode ser um ponto de equilíbrio e um momento de pausa para reorganizar a mente e o corpo. Afinal, como ensinam os mestres do zen, não se trata de chegar a um lugar específico, mas de estar onde já estamos.



