O Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, marca um momento de reflexão sobre a realidade vivida por pessoas trans no Brasil. A data, instituída em 2004, ganhou relevância por estimular o debate público sobre direitos, acesso a serviços e enfrentamento da discriminação. No campo da saúde, o tema está relacionado à prevenção da violência, ao cuidado integral e à necessidade de políticas públicas que considerem as especificidades dessa população.
Até o final do mês de janeiro, diversas ações serão realizadas por organizações da sociedade civil, instituições públicas e profissionais da área da saúde. O objetivo é ampliar o acesso à informação e promover discussões baseadas em dados, contribuindo para uma compreensão mais ampla das condições sociais e sanitárias que afetam pessoas trans. Nesse sentido, a visibilidade também está associada à produção de conhecimento e à qualificação do atendimento nos serviços de saúde.
Além disso, falar sobre visibilidade significa reconhecer que barreiras estruturais ainda impactam a qualidade de vida dessa população. Entre elas estão a exclusão social, a dificuldade de acesso a políticas públicas e a exposição a diferentes formas de violência, fatores que têm reflexos diretos na saúde física e mental.
Violência e impactos diretos na saúde da população trans
Segundo levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, somente em 2024 foram registrados 122 assassinatos de pessoas trans e travestis no país. Apesar de variações em relação a anos anteriores, o Brasil segue entre os países com maior número absoluto de mortes dessa população no mundo.
Os estados com mais registros no período foram São Paulo, com 16 casos, Minas Gerais, com 12, e Ceará, com 11. Esses números indicam uma concentração da violência em diferentes regiões do país e reforçam a necessidade de políticas articuladas entre segurança pública, saúde e assistência social. Nesse contexto, a violência não se limita aos casos letais, mas também se manifesta em agressões físicas, exclusão institucional e discriminação cotidiana.
Do ponto de vista da saúde pública, esse cenário traz impactos concretos. A exposição contínua à violência e ao preconceito está associada ao aumento do sofrimento psíquico, a barreiras no acesso aos serviços de saúde e à interrupção de tratamentos. Por isso, o enfrentamento da violência é apontado por especialistas como parte das estratégias de promoção da saúde e prevenção de agravos.
Por outro lado, também é importante destacar que pessoas trans participam ativamente da construção de políticas e respostas coletivas na área da saúde. No Brasil, movimentos liderados por travestis e pessoas trans tiveram papel relevante na resposta à epidemia de HIV, sobretudo em ações de prevenção, educação em saúde e articulação comunitária. Essa atuação contribuiu para a consolidação de políticas reconhecidas internacionalmente.
Representação política e seus reflexos nas políticas públicas
Além da atuação nos movimentos sociais, a presença de pessoas trans em espaços institucionais tem contribuído para a incorporação de temas relacionados a direitos e saúde na agenda pública. Em 2023, pela primeira vez, a Câmara dos Deputados passou a contar com mulheres trans entre suas representantes, ainda que em número reduzido.
Entre essas representantes está a deputada federal Erika Hilton, mulher trans negra eleita após uma trajetória política iniciada no legislativo municipal de São Paulo. Sua atuação tem sido associada à defesa de direitos humanos e ao debate sobre inclusão institucional.
No podcast Pé no Sofá Pod, apresentado por Flávia Alessandra e Giulia Costa, Erika abordou os desafios de ocupar espaços historicamente restritos e a importância de ampliar a diversidade na política brasileira. “A política não foi feita para corpos iguais ao meu. Eu sou a primeira mulher trans negra a ocupar um cargo na Câmara dos Deputados e fui a primeira a ocupar na Câmara de Vereadores. Sempre fui pioneira em espaços de disputas que foram pensados para homens, brancos e herdeiros. E por que não colocar mais diversidade nesses espaços?”, afirma.
Nesse sentido, a representação política influencia diretamente a formulação de políticas públicas, inclusive na área da saúde. A presença de diferentes perspectivas contribui para que temas como acesso ao SUS, atendimento humanizado, uso do nome social e formação de profissionais de saúde.
Portanto, o Dia Nacional da Visibilidade Trans funciona como um marco para ampliar o debate público e fortalecer ações baseadas em informação e dados. Além disso, reforça a necessidade de práticas que garantam continuidade do cuidado e respeito, princípios fundamentais para a promoção da saúde de toda a população.
Confira o bate-papo completo com Erika Hilton:



