No Brasil, é cada vez mais comum encontrar pessoas que pulam refeições para compensar o que comeram no dia anterior, passam o dia fazendo contas de calorias e evitam encontros com amigos para não precisar comer em público. Esses comportamentos podem parecer hábitos isolados, mas muitas vezes são sinais de alerta para transtornos alimentares, condições que afetam corpo e mente e exigem acompanhamento especializado.
A psicóloga Bruna Dalem explica que o problema é mais comum do que se imagina. “De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria, por volta de 70 milhões de pessoas no mundo apresentam transtornos alimentares. Os mais comuns aqui são anorexia nervosa, bulimia nervosa e compulsão alimentar”, diz.
Segundo ela, muitos casos seguem invisíveis. “A prevalência está cada vez maior entre jovens, principalmente na adolescência, e as principais vítimas são as mulheres. Muita gente apresenta sintomas, mas não fecha o diagnóstico. Um dos fatores é a dificuldade de reconhecer que certos comportamentos, hoje normalizados, podem indicar ou evoluir para um transtorno, somada à vergonha de se abrir sobre o tema”.
Impactos emocionais e sociais costumam aparecer antes do físico
Os efeitos dos transtornos alimentares se refletem tanto no corpo quanto na saúde mental. Com o tempo, a preocupação com peso deixa de ser algo pontual e passa a ocupar grande parte do dia, gerando culpa e medo de comer em público. Festas, almoços em família ou o simples ato de pedir uma sobremesa podem se transformar em motivo de ansiedade.
Bruna explica que o desgaste emocional chega muitas vezes antes das mudanças físicas. “O impacto que gera no dia a dia é um desgaste mental absurdo, pois a pessoa só pensa nisso. A qualidade de vida diminui e as relações são afetadas, pois a pessoa costuma se isolar para evitar certos restaurantes. São pensamentos muito intrusivos e obsessivos”, relata.
Além da relação rígida com a comida, a vida vai ficando cada vez mais estreita. Pensamentos, decisões e emoções passam a girar em torno do comer, do evitar ou do compensar. Com o tempo, o espaço para prazer, espontaneidade e presença vai desaparecendo, e a pessoa começa a viver em um estado constante de vigilância interna, o que acaba se refletindo em alterações de humor, maior irritabilidade e humor mais deprimido.
Anorexia e bulimia: sintomas e riscos físicos
A anorexia nervosa é marcada por restrição alimentar severa, distorção de imagem e medo intenso de engordar. Os primeiros sinais podem surgir rapidamente. “No curto prazo, surgem cansaço, tremores e desmaios. A longo prazo, ocorre perda muscular e óssea, baixa imunidade e amenorreia, que é a ausência de menstruação. O humor pode ficar deprimido, há irritabilidade e insônia”, detalha a psicóloga. Ela lembra, ainda, que a taxa de mortalidade permanece elevada, o que reforça a importância do diagnóstico precoce.
Já na bulimia nervosa os episódios de compulsão alimentar são seguidos de tentativas de compensação, como vômitos induzidos, jejuns, uso de laxantes ou exercícios excessivos. “O vômito frequente pode causar desgaste do esmalte dentário e calos na mão. Também podem ocorrer alterações eletrolíticas que resultam em arritmia cardíaca e desmaios”, afirma.
Como o peso pode se manter dentro da faixa considerada normal, o quadro passa despercebido. “O principal sinal é a compulsão atrelada à culpa, vergonha e necessidade de se punir”. Embora não exista uma causa única, fatores emocionais e socioculturais têm grande influência. Bruna aponta componentes biológicos, genéticos e psicológicos associados a experiências de vida e pressão estética. Entre os fatores que aumentam o risco, estão histórico de abuso físico ou sexual, bullying, críticas ao corpo, abandono e cobranças constantes de magreza.
Redes sociais podem atuar como gatilho e intensificar sintomas
Além disso, o ambiente digital pode potencializar o sofrimento. A exposição a corpos considerados ideais, conteúdos sobre dietas restritivas e promessas de emagrecimento rápido cria terreno para inseguranças e distorções de percepção. “As redes sociais aumentam a comparação com os outros, geram um novo senso de magreza, além de fake news do que pode comer e do que não pode”, afirma Bruna. Filtros, fotos editadas e influenciadores podem reforçar a sensação de inadequação, especialmente entre adolescentes.
Na prática, isso pode se traduzir em uma jovem que passa horas no feed comparando seu corpo com o de influenciadoras, uma pessoa adulta que elimina grupos alimentares após ver um vídeo viral ou alguém que sente culpa ao comer fora da dieta “perfeita” apresentada online. Esses comportamentos alimentam distorção de imagem, culpa e compulsão, agravando o quadro.
Como funciona o tratamento de transtornos alimentares
Para quem enfrenta a condição, reconhecer o problema é o primeiro passo para não esperar o quadro se agravar. Para a psicóloga, validar que há sofrimento e nomear o transtorno abre espaço para cuidado. “Se a pessoa está em sofrimento, com pensamentos obsessivos sobre comida, controle rígido de calorias ou episódios de compulsão, é hora de buscar ajuda. O tratamento precisa ser multidisciplinar com profissionais especialistas no tema. Não é qualquer psicólogo, psiquiatra ou nutricionista que vai conduzir o manejo de forma adequada”, afirma.
No acompanhamento nutricional voltado para transtornos alimentares, por exemplo, o processo envolve reconstruir a relação com a comida com segurança emocional. “Uma nutricionista especializada pode conduzir o momento de comer alimentos temidos, como um pão, mostrando que é possível comer sem prejuízo. Não se expõe peso no consultório e, dependendo da gravidade, o acompanhamento pode ser semanal ou quinzenal”, contextualiza.
Ela explica que não existe um medicamento específico para curar transtornos alimentares, mas é possível usar remédios como suporte para aliviar ansiedade, compulsão e pensamentos negativos. Em quadros mais graves, a internação é recomendada para segurança física e nutricional.
Família e amigos têm papel fundamental no processo
Escutar sem julgamento, não comentar sobre peso e incentivar o tratamento são atitudes essenciais para criar um ambiente seguro. A psicóloga destaca que o acolhimento pode fazer diferença na decisão de buscar ajuda. No SUS, o atendimento pode ser iniciado nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Além disso, existem serviços públicos e universitários especializados em diversas regiões do país:
- Rio de Janeiro — CETTAO (Santa Casa da Misericórdia) e GOTA para triagem e acolhimento;
- São Paulo — AMBULIM do HC USP e Programa de Transtornos Alimentares do HC;
- Recife — Ambulatórios de Saúde Mental da UFPE e CAPS AD III Boa Vista;
- Salvador — Ambulatório de Transtornos Alimentares do Hospital Universitário Prof. Edgard Santos (UFBA) e CAPS II Pernambués;
- Minas Gerais (Belo Horizonte) — Ambulatório de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da UFMG e CAPS CERSAM Centro.
Para quem convive com alguém nessa situação, o recomendável é que os familiares e amigos evitem comentários sobre peso e aparência, bem como ofereçam escuta sem julgamento e orientem a procurar profissionais capacitados. “É preciso incentivar a busca por ajuda, ter paciência com o processo e se mostrar disponível”, complementa.



