Nos primeiros anos de vida, a comunicação se constrói a partir de interações como olhar, balbuciar, apontar e imitar. É nesse convívio cotidiano que a criança começa a compreender o mundo e a organizar sua própria linguagem. Nos últimos anos, entretanto, cada vez mais pais têm buscado orientação por notar diferenças nesse processo. A exposição precoce às telas aparece como um dos fatores associados ao aumento dessas queixas.
Segundo o Ministério da Saúde, 12% das crianças brasileiras de até cinco anos apresentam suspeita de atraso no desenvolvimento e não demonstram habilidades esperadas para essa faixa etária. Além disso, a incidência é maior entre famílias em situação de vulnerabilidade social. Paralelamente, um levantamento da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia aponta que as queixas relacionadas ao atraso de fala aumentaram mais de 30% nos consultórios entre 2020 e 2024. Esses dados ajudam a contextualizar por que o tema ganhou espaço em debates sobre saúde infantil, educação e rotina familiar.
Antes de discutir os impactos das telas, é importante entender os conceitos envolvidos no desenvolvimento comunicativo. A fonoaudióloga Camila Queiroga explica que a comunicação vai além do ato de falar. “A comunicação é algo mais amplo, é a função por trás daquela interação. A pessoa tem a intenção de comunicar algo, mas não necessariamente ela está falando”, afirma.
A linguagem, por sua vez, é o conjunto de símbolos usados para expressar e compreender ideias. Já a fala é a produção dos sons dessa linguagem. Camila reforça que existe uma sequência natural nesse processo: “A linguagem compreensiva vai anteceder a linguagem expressiva. Primeiro a criança entende o que acontece ao redor, reconhece palavras e situações, para só então conseguir se expressar”.
O papel da escola na identificação precoce
Por volta de um ano e meio, espera-se que a criança apresente um aumento significativo no vocabulário. Quando isso não acontece ou quando gestos básicos não aparecem, pais e cuidadores começam a notar diferenças. “A fala começa na imitação. A criança imita entonação e gestos. Aquela que não aponta, não manda um beijo ou não estende a mão para pedir pode estar mostrando sinais de risco”, comenta a fonoaudióloga.
Além de casa, a escola é outro espaço para observar o desenvolvimento da comunicação. Nesse ambiente, as crianças convivem com outras da mesma idade, recebem estímulos semelhantes e participam de atividades que incentivam a troca. Para Camila, essa parceria é determinante. “A escola cria muitos momentos de interação e comunicação. A parceria entre escola, família e fonoaudiologia é importante para identificar possíveis alterações”, diz.
Esse olhar conjunto permite reconhecer sinais que podem estar relacionados ao atraso de fala ou a outros transtornos da comunicação, como dislexia e TDAH. Quanto antes o acompanhamento começa, maiores são as possibilidades de evolução.
Como as telas interferem no desenvolvimento das crianças
A infância conectada tem reconfigurado formas de brincar, aprender e se relacionar. Enquanto as telas ganham espaço no cotidiano, momentos de conversa, troca e convivência acabam ficando em segundo plano. “Quanto mais tempo de acesso à tela, menos tempo de interações reais. O uso de telas não tem essa interação real e prejudica o desenvolvimento da comunicação”, garante Camila.
Segundo ela, há consenso de que videochamadas podem ser utilizadas, especialmente para manter vínculos com familiares que moram longe. Mesmo assim, a troca presencial continua sendo indispensável para o desenvolvimento da comunicação. O impacto aparece quando o tempo de tela ocupa o espaço de brincadeiras, conversas e interações espontâneas.
Quando é hora de buscar avaliação
O atraso de fala não é um diagnóstico. Ele funciona como um sinal que exige investigação. “Independentemente da criança ter um diagnóstico ou não, ela vai precisar passar por uma avaliação fonoaudiológica para identificar se existem outros sinais de risco para outros transtornos da comunicação”, afirma Camila. Esse processo ajuda a ajustar os estímulos necessários para que a criança avance de forma adequada.
Pais e cuidadores contribuem de maneira importante para a construção da linguagem, e ações diárias podem ajudar. Camila reforça que uma das estratégias mais eficazes é também a mais simples: “Parece óbvio, mas nem sempre é: falar”. Nomear objetos, narrar atividades do cotidiano, usar gestos e apontar são práticas acessíveis e eficientes.
A especialista também orienta que os próprios adultos reduzam o uso de dispositivos durante momentos de interação. “Tenho orientado que as famílias precisam de um tempo fora das telas. Nem que sejam 15 minutos, sem interferência de celular ou televisão, para brincar, olhar no olho e criar momentos de vínculo”.
Como substituir parte do tempo de tela das crianças
Algumas atividades ajudam a reorganizar a rotina sem pressão por grandes mudanças. A leitura é uma das mais recomendadas, sobretudo antes de dormir. Caminhar, brincar no chão, montar blocos e explorar objetos da casa com segurança são outras opções. “O importante é tentar incluir atividades funcionais na rotina da família”, sugere a fonoaudióloga.
Assim, a construção da fala e da linguagem depende de presença, troca e disponibilidade emocional. Se algo no ritmo da criança levanta dúvidas, um acompanhamento fonoaudiológico pode trazer clareza, cuidado e caminhos possíveis. É um passo que acolhe a família e ajuda a criança a desenvolver seu próprio ritmo de comunicação, com segurança e apoio.



