É comum ouvir frases como “pense positivo”, “vai dar tudo certo” ou “não reclama, tem gente em situação pior”. Elas parecem inofensivas, mas quando usadas de forma frequente, podem esconder um problema: a positividade tóxica. Esse termo descreve a tendência de negar ou minimizar emoções consideradas negativas, como tristeza, raiva e frustração, em nome de uma felicidade constante.
Na prática, a positividade tóxica acontece quando tentamos impor uma atitude sempre otimista, mesmo diante de situações difíceis. É como se houvesse uma regra invisível de que sentir-se triste ou desmotivado não fosse permitido. Nas redes sociais, esse comportamento pode ficar ainda mais visível: fotos sorridentes, frases inspiradoras e uma aparente tranquilidade, mesmo quando a realidade é mais complexa. A busca por uma vida perfeita acaba reforçando a ideia de que qualquer sinal de sofrimento é um fracasso pessoal.
O impacto de reprimir emoções
O problema é que emoções não desaparecem apenas porque tentamos ignorá-las. Diversos estudos mostram que reprimir sentimentos negativos pode gerar efeitos físicos e mentais. Quando evitamos expressar raiva, medo ou tristeza, o corpo reage como se estivesse em alerta, liberando mais cortisol, o hormônio do estresse. Com o tempo, isso pode contribuir para quadros de ansiedade, insônia, dores musculares e queda da imunidade.
Além disso, a tentativa de manter uma imagem de positividade dificulta a criação de vínculos verdadeiros. Quando alguém compartilha um problema e recebe respostas como “é só pensar positivo” ou “poderia ser pior”, o diálogo se fecha. Em vez de acolhimento, a pessoa sente que não pode demonstrar vulnerabilidade, o que aumenta a sensação de isolamento.
Emoções negativas também têm função
Sentir tristeza após uma perda, medo diante de uma mudança ou raiva em uma situação injusta são reações naturais. “Essas emoções ajudam o cérebro a processar o que está acontecendo e indicam que algo precisa de atenção. Ignorá-las não resolve o problema, pois apenas adia a reflexão necessária para lidar com ele”, explica a psicóloga Maria Eduarda Couto.
Reconhecer que “não estar bem” faz parte da experiência humana e é importante para o equilíbrio emocional. “Permitir-se sentir é diferente de se entregar ao sofrimento. Significa aceitar que emoções variam e que momentos de desconforto também trazem aprendizado e autoconhecimento”, comenta Maria Eduarda.
Como lidar com a pressão pela felicidade e positividade tóxica
O primeiro passo é observar o próprio discurso e o das pessoas ao redor. Frases como “não pense nisso”, “você precisa ser grato” ou “tudo acontece por um motivo” podem parecer motivadoras, mas às vezes funcionam como um bloqueio para conversas mais sinceras. Trocar essas expressões por perguntas como “quer conversar sobre isso?” ou “como posso ajudar?” abre espaço para escuta e empatia.
Outro ponto importante é entender que positividade e negação são coisas diferentes. Ter uma visão otimista da vida é saudável quando vem acompanhada de realismo e autocompaixão. É possível manter a esperança sem precisar mascarar o que se sente. Portanto, aprender a lidar com emoções envolve prática e autoconhecimento. Uma dica é observar como reagimos diante de situações desafiadoras e buscar formas de expressar o que sentimos, seja conversando, escrevendo ou praticando atividades que ajudem na regulação emocional.



