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Na minha coluna anterior, discutimos o jejum de telas (adultos em busca da desconexão). Mas a pista mais intrigante sobre o futuro do bem-estar vem da Geração Alpha (nascidos a partir de 2010), a geração mais digitalizada da história. Um fato que me chamou a atenção foi o relato de uma amiga: uma moda se espalhou na turma do filho de 12 anos de levar máquinas de escrever para a escola! Um objeto pesado, lento e barulhento que, de repente, virou cool.

A professora, inclusive, precisou proibir o uso em aula por perturbação. Segundo informações coletadas, o fascínio vem também da facilidade de “imprimir” enquanto se escreve (!). O ato de levar um aparato obsoleto para o ambiente escolar é um manifesto. Surge em parte como resposta à proibição de celulares. É o “tec-tec-tec” audível e mecânico como parte do ritual de escrita e das anotações. É um grito por textura e presença em um mundo que demanda eficiência silenciosa – aquela performance fluida e sem atrito que o digital exige. E chama muita atenção, pois não estamos falando de jovens adultos, mas sim adolescentes com menos de 15 anos.

A lição da falta de praticidade

Aqui está uma das chaves do movimento: o apelo dessa tecnologia arcaica reside em parte na sua falta de praticidade. Para quem viveu a transição do analógico para o digital, a máquina de escrever é sinônimo de trabalho árduo e sem “undo”. Mas é justamente na lentidão forçada que está a lição: o erro é irreversível, e isso exige foco e planejamento – habilidades que o botão de “voltar”, ilimitado, desestimulou. O jovem está aprendendo pela experiência. Além disso, a máquina de escrever funciona como um ato de performatividade analógica. Ela chama a atenção e marca a posição do jovem como diferente e cool, fora do padrão silencioso das telas.

A estética do erro e a busca por história

O romantismo nostálgico não se limita à escrita; ele se expande, valorizando a beleza da imperfeição em contraposição à pressão digital pela perfeição. Essa mentalidade se manifesta em outras frentes:

1. Câmeras digitais antigas: jovens trocam a perfeição do celular pela baixa qualidade de imagem e saturação das câmeras digitais dos anos 2000. A granulação e a pouca definição conferem uma estética de autenticidade, antídoto visual contra a pressão dos filtros. A imperfeição se torna atrativa.

2. Encantamento com os brechós: tal qual a Geração Z, a Alpha também começa a se contagiar pela garimpagem de roupas de segunda mão. A busca por algo que tenha “história” salta para outras esferas. O thrift shopping é a rejeição à produção em massa e ao fast fashion, abraçando a sustentabilidade e a unicidade. A peça carrega narrativa e senso de identidade que o consumo homogêneo não entrega. A máquina de escrever, a foto granulada e o casaco de brechó representam a mesma coisa: a rejeição à velocidade em favor do valor tangível, da narrativa e da autenticidade.

A higiene mental e o antídoto sinestésico

No fim das contas, a Geração Alpha está buscando higiene mental. O Brain Rot (deterioração da capacidade de concentração) é real. A lentidão imposta por esses objetos é um ato de autocuidado que combate essa corrosão. Como já falei, a busca por presença se manifesta no Contramovimento Sinestésico, valorizando as sensações. Não é em vão que vídeos de ASMR são sucesso, assim como outras experiências como o consumo de “bubble tea”, ou a loucura do morango do amor. Todos trazem a exacerbação dos sentidos.

Ao resgatar o obsoleto, os Alphas estão criando seus próprios rituais de presença. Eles nos ensinam que o foco e o bem-estar se encontram no lugar menos eficiente, mas que carrega o luxo da lentidão. Vamos nos inspirar neles?

*E a quem convive com essa geração, que tal propiciar a eles o máximo de momentos analógicos, com jogos de tabuleiro, atividades ao ar livre, tarefas manuais, experiências sensoriais e resgate de hábitos fora da tela? No futuro eles vão te agradecer!


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autoria

Foto de Suzana Cohen

Suzana Cohen

Colunista

Com mais de 15 anos de experiência em marketing e doutorado na área das tendências, é consultora e professora focada em decifrar os sinais do presente para entender melhor o futuro.
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