Fadiga persistente, infecções que insistem em voltar, sangramentos sem explicação e manchas roxas pelo corpo. Esses são alguns dos sinais que podem indicar problemas graves na produção das células do sangue, um processo que acontece dentro dos ossos, na chamada medula óssea. Quando essa fábrica natural deixa de funcionar, doenças como leucemia, linfoma e anemia falciforme podem surgir e comprometer a vida do paciente. Em muitos casos, o transplante de medula se torna a única alternativa de cura e é justamente aí que entra a importância da doação voluntária.
Apesar de o Brasil contar com o terceiro maior banco de doadores do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha, encontrar um doador compatível ainda é um enorme desafio. O Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (REDOME) reúne hoje cerca de 5,78 milhões de voluntários cadastrados, segundo dados divulgados em julho de 2024. O número impressiona, mas a diversidade genética do país ainda é um obstáculo: apenas 2,2 milhões desses doadores se declararam não brancos, o que reduz as chances de compatibilidade para pacientes negros e pardos. Em outras palavras, quanto mais variado for o perfil dos cadastrados, maiores as possibilidades de salvar vidas.
A medula óssea é um tecido esponjoso que produz glóbulos vermelhos, responsáveis por transportar oxigênio; glóbulos brancos, que defendem o corpo contra infecções; e plaquetas, que atuam na coagulação do sangue. Quando algo sai do eixo, o organismo perde essas defesas e se torna vulnerável. Não existe uma forma de prevenção para a maioria das doenças que afetam a medula, mas o diagnóstico precoce aumenta as chances de sucesso no tratamento.
Como ser doador de medula óssea
E como ser doador? Para se cadastrar, basta ter entre 18 e 35 anos, estar em boas condições de saúde e procurar um hemocentro. Lá, é feita a coleta de uma pequena amostra de sangue, que permitirá a análise genética. Com isso, os dados entram no REDOME e podem ser cruzados com os de pacientes que aguardam um transplante. Se houver compatibilidade, o voluntário é chamado para realizar a doação.
O procedimento pode ser feito de duas formas: pela coleta central, em ambiente hospitalar e sob anestesia, em que a medula é retirada da bacia; ou pela coleta periférica, semelhante à doação de sangue, em que o doador recebe injeções por alguns dias para estimular a produção de células-tronco, que depois são coletadas por equipamento específico. Em ambos os casos, os riscos são mínimos e a recuperação, rápida.
Fabiana Justus conta sua experiência
Histórias reais ajudam a traduzir a dimensão desse gesto. A empresária e influenciadora Fabiana Justus, que enfrentou um diagnóstico de leucemia, precisou de um transplante de medula para seguir o tratamento. Ela encontrou compatibilidade com um jovem de 25 anos, nos Estados Unidos, e compartilhou no podcast “Pé no Sofá Pod” das nossas colunistas Flávia Alessandra e Giulia Costa a emoção de ter tido a vida salva por alguém que jamais havia conhecido.
Após o procedimento, Fabiana pôde enviar uma carta ao doador, ainda de forma anônima. “Com um ano do transplante, eu posso mandar uma carta anônima. Eles me deixaram escrever seis linhas. Eu escrevi seis linhas. Você escreve em seis linhas para a pessoa que salvou sua vida. Então, assim, eu escrevi, obviamente, que graças a ele eu estou vendo meus três filhos crescerem, que eu vou ser eternamente grata, que eu não vejo a hora de poder, pessoalmente, agradecê-lo e tudo mais”, contou.
O relato de Fabiana não é isolado. Todos os anos, milhares de pacientes brasileiros aguardam pela chance de um transplante que pode mudar o rumo de suas histórias. A espera, muitas vezes, é angustiante e pode se estender por meses ou até anos, sobretudo pela dificuldade em encontrar compatibilidade. Cada novo voluntário cadastrado aumenta a probabilidade de que um paciente encontre sua tão sonhada combinação genética.
Procedimento é seguro e realizado com acompanhamento médico
Ainda há mitos que cercam a doação de medula óssea, como a ideia de que o processo é extremamente doloroso ou arriscado. Especialistas reforçam que o procedimento é seguro, realizado com acompanhamento médico e em ambiente hospitalar adequado. O desconforto existe, mas é temporário, e em poucos dias o doador retoma sua rotina normalmente. Para quem recebe, porém, o impacto é incomparável: a chance de voltar a viver momentos simples, de fazer planos, de ver os filhos crescerem.
Ser doador de medula óssea é um gesto de solidariedade de alcance imenso. Num país de dimensões continentais e miscigenação tão rica quanto a do Brasil, cada cadastro conta. É ele que pode encurtar a distância entre um diagnóstico e a esperança de cura.
Se você tem entre 18 e 35 anos, está saudável e deseja salvar vidas, procure o hemocentro mais próximo e dê o primeiro passo. Pode ser que, em algum lugar do mundo, exista alguém esperando por você para continuar escrevendo sua história.



