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Vivemos um tempo em que quase tudo pode ser compartilhado. Nossos momentos, pensamentos e afetos são registrados, publicados e avaliados em tempo real. Mas o que acontece quando a vida passa a existir apenas sob o olhar do outro? Quando a validação de quem somos depende da reação de uma tela?

Eu mesma não sei o que é não estar exposta. Meus pais são figuras públicas, e isso significa que, antes mesmo de saber segurar um celular, eu já estava em alguma revista, sorrindo em fotos de família. Cresci vendo minha própria vida se misturar com o olhar dos outros e, de certa forma, aprendi que existir era algo que precisava ser comprovado.

A psicanalista Maria Rita Kehl afirma que “a indústria cultural tornou o ser em um ser genérico”. No fundo, ela está dizendo que o sujeito virou um padrão: somos diferentes, mas só até o limite do que o algoritmo considera interessante. Nossos gestos, nossos estilos, até nossas crises precisam performar bem. E aí vem a angústia: será que eu sou só mais um perfil tentando parecer interessante?

Freud e o sofrimento humano

Freud, lá no início do século XX, dizia que o sofrimento humano vem de três lugares: do corpo (porque ele caminha para a morte), do mundo (porque é cheio de forças que não controlamos) e das relações (porque amar dói).  Hoje, talvez possamos pensar que a era digital intensificou esse terceiro tipo de sofrimento. As relações, mediadas pelas redes, ganharam novas formas de presença e ausência. Estamos conectados o tempo todo, mas raramente disponíveis de fato.

Há uma tentativa de compensar um desamparo existencial com curtidas e visualizações. Se uma foto não recebe atenção, ela é apagada; se um post não engaja, sentimos que falhamos. É como se o olhar do outro, antes presente nas relações cotidianas, agora precisasse ser medido, contabilizado. 

A psicanalista Ana Suy diz que no amor somos insubstituíveis. Talvez por isso exista uma tendência a romantizar tempos anteriores, em que a vida parecia mais próxima e os vínculos mais estáveis. Mas o tempo em que vivemos é este. E nele, as relações se constroem também através das telas. A questão não está em negar a era digital, mas em compreender o que ela faz com o nosso modo de existir.

Era digital: omo estar conectado sem se perder?

A depressão, nesse contexto, parece um sintoma de cansaço coletivo. É o esgotamento de tentar existir em público o tempo todo. O problema é que não dá pra desinstalar o mundo digital. Ele é parte da vida, do trabalho, das amizades, dos amores. A questão é como estar conectado sem se perder.

Talvez o segredo esteja em recuperar o espaço lúdico que esquecemos. Fazer coisas sem registrar, rir sem gravar, errar sem precisar justificar. Voltar a brincar um pouco com a própria vida, mesmo que ninguém veja.

A era digital trouxe muitas possibilidades, mas também uma pressão invisível: a de se tornar interessante o tempo todo. E, quando não conseguimos, vem o vazio. Só que o vazio também é humano, pois ele é o intervalo entre um post e outro, o tempo em que a gente existe sem precisar provar nada. Eu resumo, talvez a pergunta não seja mais “como existir sem postar?”, mas “como existir também fora do post?”. Porque, apesar do que o algoritmo tenta nos convencer, ainda existe vida fora da tela e, às vezes, ela é até mais bonita quando ninguém está olhando.


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Foto de Giulia Costa

Giulia Costa

Artista e assistente de direção

Artista, cineasta e amante do mar, da natureza e dos animais. Entusiasta de um olhar mais leve e de conversas francas. No Meu Ritual quero inspirar cada um a ter uma jornada mais gentil – com menos pressa e...
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