Quando chega dezembro, o Brasil parece entrar em outro ritmo. A sensação de que tudo precisa ser resolvido antes do dia 31 toma conta das agendas, empresas e conversas. É o momento das confraternizações, das metas que ficaram para depois, dos planos que precisam caber no calendário e da corrida para terminar o ano no positivo. O clima festivo existe, mas também vem acompanhado de pressa, acúmulo de tarefas e uma onda de excessos que pode gerar estresse. Esse comportamento tem nome e vem sendo observado por especialistas: o chamado efeito dezembro.
Segundo a psicóloga Aline Wolff, pesquisadora de performance sustentável e líder na área de saúde mental do Comitê Olímpico Brasileiro, o mês concentra emoções e demandas acumuladas ao longo dos outros 11. Para ela, dezembro não é apenas o fim do calendário, mas um período em que projetos se comprimem e a urgência cresce. “Parece que o ano tem 365 dias, mas dezembro carrega sozinho o peso de todos eles”, comenta.
Por que o efeito dezembro pode pesar mais no emocional?
Aline explica que existe um conjunto de fatores que potencializam o efeito dezembro: calor, férias chegando, expectativas sobre rituais, eventos sociais, planejamento familiar, fechamento de metas e cansaço acumulado. No ambiente corporativo, o impacto é ainda maior. Muitas empresas concentram entregas nas últimas semanas, criando gargalos que reforçam um funcionamento baseado em urgência. “O problema não é o mês, é a falta de consciência sobre como chegamos até ele”, pontua.
Foi a partir de pesquisas com atletas e depois com executivos que Aline desenvolveu o método chamado de “produtividade sustentável”. A ideia é atravessar o fim de ano com mais clareza, planejamento e equilíbrio, em vez de ser engolido por demandas. A metodologia se apoia em três pilares: organização, consciência e entendimento de prioridades.
Organização: distribuir o ano, não sufocar o fim
O primeiro passo é compreender que dezembro não precisa concentrar tudo. De acordo com Aline, organizar tarefas com antecedência reduz a sensação de avalanche. Definir o que realmente precisa ser entregue antes do recesso, criar prazos internos realistas e planejar férias com tempo são medidas que evitam acúmulo e tornam o encerramento do ano menos caótico. Para ela, o ponto é aceitar o ritmo possível, e não o idealizado.
Consciência: sair do piloto automático
O segundo eixo envolve observar como estamos vivendo o mês. Muitas pessoas entram em um fluxo acelerado sem questionar se cada compromisso faz sentido ou apenas segue o padrão cultural do período. Pausas para perceber o nível de cansaço, identificar sinais físicos como irritabilidade, dor de cabeça ou insônia e ajustar o ritmo podem evitar o colapso que costuma aparecer depois das festas. “O giro automático rouba o que o mês poderia ter de melhor: conexão, convivência e significado”, diz Aline.
A importância de ter entendimento sobre as prioridades
Por fim, a especialista reforça que nem tudo precisa terminar antes do ano acabar. Mapear o que é urgente, diferenciar tarefas importantes daquelas que apenas dão sensação de ciclo fechado e negociar prazos com equipes ajuda a desmontar o efeito dezembro. A pergunta que deve guiar esse processo é: como quero viver este mês?
Quando a resposta é ignorada, seguimos o fluxo coletivo, que muitas vezes é acelerado. Reconhecer que o ano não se encerra na virada e que há espaço para continuar no próximo ciclo reduz a pressão. “O corpo sabe quando estamos forçando além do possível. Usá-lo como bússola é o caminho para uma produtividade sustentável que não adoece”, completa Aline.
Portanto, entre tarefas, celebrações e metas que insistem em caber na agenda, é possível escolher ritmo, ajustar expectativas e priorizar o que faz sentido. Talvez isso signifique dizer menos “sim”. Talvez envolva criar pausas intencionais, mesmo que breves, para não chegar à virada exausto. Com todas essas informações em mãos, vale olhar para o calendário com mais estratégia e menos pressa. O que pode esperar? O que precisa de você agora?



