Uma pesquisa nacional sobre hábitos culturais mostra que o acesso à cultura no Brasil segue concentrado em determinadas atividades, regiões e perfis sociais. Os dados são da 6ª edição do levantamento Hábitos Culturais, conduzido pelo Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha, e ajudam a compreender como os brasileiros têm consumido cultura tanto de forma presencial quanto virtual.
O estudo ouviu 2.432 pessoas, entre 16 e 65 anos, de diferentes regiões do país, em entrevistas realizadas entre 11 e 26 de agosto de 2025. A partir desse recorte, foi possível mapear padrões de frequência, preferências e barreiras relacionadas ao consumo cultural no Brasil.
Baixa visitação a museus e maior adesão a eventos ao ar livre
Entre os principais resultados, chama atenção o fato de que apenas uma parcela reduzida da população visitou museus no último ano. O percentual é de 16%, o que indica que esse tipo de equipamento cultural ainda alcança uma parte limitada dos brasileiros.
Em contrapartida, atividades realizadas ao ar livre lideram o ranking de participação cultural. Cerca de seis em cada 10 entrevistados afirmaram ter frequentado esse tipo de evento nos últimos 12 meses. Na sequência, aparecem os shows de música, as festas folclóricas, populares e típicas, além do cinema, que também mantêm presença relevante na agenda cultural da população.
Esse cenário sugere que iniciativas culturais associadas ao lazer, à convivência social e a espaços abertos seguem mais acessíveis ou atrativas para grande parte dos brasileiros.
Diferenças de acesso entre classes sociais e grupos raciais
A pesquisa também evidencia desigualdades importantes quando os dados são analisados por recorte socioeconômico. Entre pessoas das classes A e B, quase a totalidade declarou ter participado de alguma atividade cultural presencial no último ano. Já entre os entrevistados das classes D e E, esse índice é significativamente menor, ainda que a maioria também relate algum tipo de participação.
As diferenças aparecem de forma ainda mais clara quando se observa o tipo de atividade frequentada. Pessoas que se autodeclaram brancas relatam maior presença em cinemas, teatros e museus, em comparação com pessoas negras. Esse dado reforça discussões já presentes no campo da saúde coletiva e do bem-estar sobre como o acesso à cultura também está relacionado a fatores sociais, raciais e econômicos.
Consumo cultural presencial e online convive no dia a dia
Outro ponto do levantamento é a combinação entre práticas presenciais e virtuais. Nos meses anteriores à pesquisa, nove em cada dez respondentes afirmaram ter realizado alguma atividade cultural de forma online, como assistir a shows transmitidos pela internet, acessar conteúdos culturais em plataformas digitais ou participar de eventos virtuais.
Ao mesmo tempo, 84% disseram ter participado de atividades culturais presenciais no mesmo período. Isso indica que o consumo digital não substituiu totalmente o presencial, mas passou a coexistir com ele, ampliando as formas de acesso à cultura.
Quando observada a evolução dos últimos dois anos, os dados mostram estabilidade na maior parte das atividades culturais analisadas, considerando a margem de erro do estudo. Ou seja, não houve crescimento ou queda expressiva no consumo cultural médio da população nesse intervalo.
Perfil de quem consome mais cultura em casa ou online
As atividades culturais realizadas dentro de casa ou pela internet são mais comuns entre moradores de regiões metropolitanas, pessoas com maior escolaridade e indivíduos pertencentes às classes econômicas mais altas. Além disso, esse tipo de consumo aparece com maior frequência entre pessoas que se autodeclaram brancas.
Por outro lado, a adesão a atividades culturais domésticas ou digitais é menor entre pessoas de 45 a 65 anos e entre moradores de municípios de pequeno porte. Esse dado ajuda a entender como fatores como infraestrutura, acesso à internet e oferta local de atividades influenciam diretamente os hábitos culturais.
Frequência presencial varia por gênero e escolaridade
O levantamento também analisou a regularidade com que as pessoas participam de atividades culturais presenciais. Ir a eventos culturais a cada 15 dias é uma prática mais comum entre homens do que entre mulheres. Além disso, essa frequência é menos citada por pessoas mais velhas e por aquelas com menor nível de escolaridade, especialmente quem possui apenas o ensino fundamental.
Esses recortes mostram que a participação cultural regular está associada a uma combinação de fatores sociais, econômicos e demográficos.
Cultura, saúde e políticas públicas caminham juntas
Embora o estudo tenha como foco os hábitos culturais, seus resultados dialogam diretamente com temas ligados à saúde e à qualidade de vida. O acesso à cultura está relacionado à socialização, ao uso do tempo livre e à participação na vida comunitária, aspectos reconhecidos como relevantes para o bem-estar físico e mental.
Os dados reforçam a importância de políticas culturais que ampliem o acesso a eventos, equipamentos e atividades. Da mesma forma, apontam para a necessidade de integração com outras áreas, como mobilidade urbana, segurança pública e condições de consumo. Sem essas articulações, parte da população continua encontrando dificuldades para acessar a produção cultural disponível.



