As corridas de longa distância ganharam popularidade entre atletas amadores e profissionais. Provas como ultramaratonas e desafios de trilha passaram a fazer parte do calendário esportivo de muitas cidades e de destinos internacionais. Para quem participa, completar dezenas de quilômetros correndo representa um objetivo pessoal e um teste de resistência física e mental.
Uma pesquisa publicada na revista científica Blood Red Cells & Iron, da Sociedade Americana de Hematologia, investigou como as corridas de resistência extrema afetam o sangue dos atletas. O estudo analisou alterações em glóbulos vermelhos após competições de longa distância e identificou sinais de desgaste nas células responsáveis por transportar oxigênio pelo corpo.
Antes de tudo, os próprios pesquisadores destacam um ponto importante. A atividade física regular continua sendo recomendada para a saúde. O foco da análise está em provas de resistência extrema, que podem variar entre 40 e mais de 100 quilômetros. Corridas recreativas ou treinos moderados não entram nesse cenário.
Portanto, compreender o que acontece no organismo durante esse tipo de esforço ajuda atletas e profissionais de saúde a avaliar riscos e planejar treinos com mais segurança.
O papel dos glóbulos vermelhos durante o exercício e corridas longas
Os glóbulos vermelhos têm uma função essencial no organismo. Essas células circulam continuamente pelo sistema cardiovascular transportando oxigênio para os tecidos e ajudando a remover resíduos metabólicos. Para manter esse processo ativo, o corpo produz cerca de dois milhões de novas células por segundo.
Durante atividades físicas intensas, a demanda por oxigênio aumenta. Músculos em movimento precisam de energia para sustentar o esforço, e os glóbulos vermelhos participam diretamente desse processo.
Em corridas muito longas, esse sistema trabalha em um ritmo ainda mais acelerado. O fluxo sanguíneo aumenta, a frequência cardíaca se eleva e a circulação precisa responder de forma eficiente por várias horas. Foi esse cenário que motivou o estudo recente. Os pesquisadores queriam entender se o esforço prolongado poderia alterar a estrutura ou o funcionamento dessas células.
Para isso, a equipe analisou 23 corredores que participaram de duas provas conhecidas no circuito de ultramaratonas. Uma delas teve percurso de 40 quilômetros entre Martigny e Chamonix. A outra foi o Ultra Trail do Mont Blanc, uma prova de 171 quilômetros realizada em trilhas alpinas.
Os cientistas coletaram amostras de sangue antes e depois das corridas. Em laboratório, examinaram milhares de componentes presentes no plasma e nos glóbulos vermelhos, incluindo proteínas, lipídios, metabólitos e oligoelementos.
O que os cientistas observaram nas células do sangue
A análise mostrou que os glóbulos vermelhos apresentaram sinais de desgaste após as provas. Segundo os pesquisadores, as células exibiram evidências de danos mecânicos e também alterações moleculares.
O dano mecânico pode ocorrer devido ao impacto repetido da corrida e ao aumento da circulação sanguínea durante o esforço prolongado. Já as alterações moleculares indicam mudanças internas na composição das células.
Essas transformações não significam necessariamente uma doença imediata, mas mostram que o organismo passa por um processo de estresse fisiológico. Além disso, corridas muito longas podem provocar outros efeitos conhecidos entre atletas de resistência. Entre eles estão inflamação muscular, perda de sais minerais, desidratação e queda temporária de desempenho após a prova.
Por esse motivo, especialistas costumam recomendar acompanhamento médico para quem pretende participar de desafios dessa magnitude. Avaliações cardiovasculares, exames laboratoriais e planejamento de treino ajudam a reduzir riscos. Outro ponto é a recuperação. Depois de uma prova de longa distância, o corpo precisa de tempo para restaurar o equilíbrio metabólico e permitir que tecidos e células se regenerem.
Como praticar corridas de forma segura
Apesar dos alertas, os pesquisadores reforçam que a corrida continua sendo uma das atividades físicas mais indicadas para melhorar a saúde cardiovascular, controlar o peso e reduzir o estresse. A diferença está na intensidade e na duração do esforço. Treinos regulares, corridas de rua e distâncias moderadas costumam trazer benefícios quando praticados com orientação adequada.
Para quem tem interesse em provas de longa distância, a recomendação é progredir gradualmente. O aumento de quilometragem precisa ser acompanhado por períodos de descanso, alimentação equilibrada e hidratação constante. Também é importante observar sinais do próprio corpo. Fadiga persistente, tontura, dores incomuns ou queda abrupta de desempenho podem indicar que o organismo está sendo exigido além do limite.
Além disso, acompanhamento com profissionais de saúde e educação física ajuda a adaptar o treinamento às características individuais de cada atleta.
Em resumo, desafios esportivos fazem parte da motivação de muitos corredores. Porém, compreender os efeitos das corridas extremas no organismo permite tomar decisões mais informadas e preservar a saúde a longo prazo.



