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É comum ouvir relatos de pessoas que, ao chegar em casa após um dia intenso, comem mais do que o planejado ou fazem várias idas à cozinha sem estarem realmente com fome. Para muitas, isso faz parte da rotina. Contudo, quando a pessoa passa a ingerir grandes quantidades de comida em pouco tempo, sem fome e com sensação clara de perda de controle, o comportamento pode indicar compulsão alimentar. 

Essa diferença é essencial para distinguir episódios isolados de quadros relacionados a transtornos alimentares, que envolvem padrões mais amplos, como restrições rígidas, comportamentos compensatórios e distorções persistentes da percepção corporal. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 4,7% dos brasileiros convivem com o transtorno de compulsão alimentar, taxa quase duas vezes maior que a média global, estimada em 2,6%. 

Apesar disso, muitos episódios passam despercebidos, já que parte das pessoas não reconhece o que está acontecendo ou acredita que a situação deriva apenas de falta de organização alimentar. Foi sobre essa dificuldade de identificação que o psiquiatra e professor Ervin Contrik falou durante o programa Utalks, apresentado por nossa colunista Flávia Alessandra.

O que caracteriza a compulsão alimentar

Para explicar como esse comportamento se desenvolve, Ervin propôs uma reflexão dividida em três elementos. “Para começar a pensar em compulsão alimentar, separe em três pilares. O primeiro é problemas que a gente tem passado no nosso dia a dia, como parte profissional, pessoal e familiar. O segundo pilar são características da nossa personalidade que podem ser melhoradas. E o terceiro são sintomas, como sensações que a pessoa nunca teve e começaram a aparecer ao longo do tempo, mas que sozinha não controla, como insônia”, explica.

Ele reforça que esses sintomas merecem atenção. “Quando a pessoa começa a ter insônia e nunca teve essa sensação, é um sintoma porque não é problema, pois ela pede para o sono vir e ele não vem; e também não é característica, porque não tinha isso desde a infância”.

Esses três pilares ajudam a diferenciar fatores emocionais, traços pessoais e sinais recentes que passam a afetar o comportamento. Com esse entendimento, a compulsão deixa de ser tratada como um evento isolado e passa a ser vista como um fenômeno influenciado por mudanças emocionais, hábitos e estresse.

Dietas muito restritivas podem agravar episódios

Ainda durante o Utalks, Ervin alertou que dietas muito restritivas podem agravar episódios. “Dieta restritiva não é adequada para quem tem compulsão alimentar, porque se você restringe mais é um gatilho para o cérebro para potencializar a compulsão.” De acordo com ele, os episódios tendem a aumentar no fim da tarde ou início da noite. “Geralmente as compulsões começam às 18h ou 19h, porque as pessoas podem estar mais estressadas ou se alimentarem menos”.

Ele também descreveu o processo de antecipação que frequentemente antecede o episódio. “A pessoa marca de jantar e já começa a pensar: ‘será que vai ter a comida que eu consigo controlar ou não?’ E aí à noite essa luta fica mais intensa e a pessoa começa a pensar ‘não posso, não devo, não quero’.” Em algum momento, segundo o psiquiatra, o impulso supera a tentativa de controle. “Em determinado momento, isso vai angustiado e a pessoa tem a compulsão, que é o ato para aliviar essa sensação angustiante”.

Esse ciclo acaba ativando mecanismos internos ligados ao prazer. “A essa hora se acessa o sistema de recompensa, que é o que dá prazer e a dopamina vai pro alto. Nesse momento, a pessoa come uma quantidade de comida maior e tem a nítida sensação de perda de controle.”

Como diferenciar compulsão alimentar e transtorno alimentar

A compulsão alimentar envolve episódios de ingestão rápida e excessiva de comida, marcados pela perda de controle. Para que esse quadro seja considerado um transtorno, é necessário que os episódios ocorram com frequência significativa e gerem sofrimento, prejuízo emocional ou impacto social.

Os transtornos alimentares, por sua vez, englobam comportamentos mais amplos. Isso inclui restrições severas, práticas compensatórias, rituais alimentares e uma percepção distorcida do corpo. Assim, enquanto a compulsão pode aparecer em diferentes momentos da vida, o transtorno se caracteriza pela persistência e pelo comprometimento de várias áreas do cotidiano.

Ervin destaca a importância de reconhecer esses limites. Ele lembra ainda que o peso não determina, por si só, a presença de um transtorno alimentar. “Mais de 60% da população brasileira tem sobrepeso ou está obesa. Então é mais comum não estar no peso normal”. Para ele, cada caso precisa de avaliação individual.

Caminhos de cuidado e importância da informação

Segundo o psiquiatra, psicoterapia e exercícios regulares são importantes no tratamento. Medicamentos podem ser necessários em alguns casos, mas não são a primeira recomendação. “Remédio só consegue ajudar se tiver indicação nos sintomas, que seria a parte médica dessas divisões”, diz.

Para Ervin, o primeiro passo é ampliar a compreensão sobre o tema. “Se você nem sabe a possibilidade de ter compulsão alimentar, como você vai buscar ajuda?”, afirmou durante o programa. Ao reconhecer sinais, entender diferenças e buscar apoio, a pessoa começa a construir uma relação mais estável com a alimentação e com as próprias emoções.

E, para quem está vivendo esse processo agora, vale reforçar: você não está sozinho. Procurar ajuda profissional é um gesto de cuidado consigo mesmo, e acompanhamento médico, psicológico e nutricional pode trazer clareza, segurança e estratégias para lidar com o que está acontecendo.

Confira o papo completo:


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