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A água caindo córrego abaixo, seguindo um curso desconhecido. Os milhares de tons de verde que percebemos dependendo da atenção que damos a determinada situação. Olhar para as estrelas e pensar no tempo que nos separa delas. Tudo na natureza é misterioso, especialmente nossa relação com ela. Criamos métricas para mensurar o que sentimos, o que vemos, o que imaginamos, quando, muitas vezes, a melhor forma de expressar algo é justamente deixar que ela exista sem a necessidade de definição.

Será que entender tudo é realmente assim tão importante? Acabo de terminar Água viva, de Clarice Lispector. A sensação que senti ao longo da leitura foi a de um certo desconforto. Li como quem pensa. Como quem deixa o fluxo de consciência ir e vir livremente. Eu, que não passo para a próxima linha de um livro sem antes entender palavra a palavra do que foi escrito, nessa leitura me permiti deixar as palavras correrem sob meus olhos como uma correnteza, que leva e traz água em movimento. Água viva.

O livro apresenta basicamente as reflexões de uma narradora pintora que escreve seus pensamentos livremente para um remetente nunca revelado. Sua escrita, livre e por vezes confusa, parece tentar captar o “já”, o “instante”, o que se sente no segundo presente. Mas a verdade é que o instante escapa ao registro. E, por isso, muitas vezes é tão difícil colocar em palavras — ou em imagens — aquilo que vivemos e sentimos. E será que precisamos?

Clarice Lispector e a pintura

Ao longo de todo o livro, a descrição que a pintora faz de sua própria obra parece remeter a pinturas abstratas. Em suas reflexões, ela sugere tentar dar forma à palavra como quem pinta um quadro. E talvez essa escolha não seja apenas um recurso narrativo. Clarice Lispector, para além da literatura, depois de mais velha se aventurou na pintura abstrata. Essa aproximação entre escrita e pintura torna o livro ainda mais interessante, como se a narradora trouxesse traços da própria Clarice. Aliás a capa da edição da Rocco, que foi a que eu li, é feita a partir de uma pintura de Clarice, e isso reforça o diálogo entre palavra e imagem, tão abordado ao longo de “Água Viva”.

Quando estranho uma pintura é aí que é pintura. E quando estranho a palavra é aí que ela alcança o sentido. E quando estranho a vida aí é que começa a vida”. Essa foi uma das diversas frases que me marcaram no livro e que me fizeram sentir para além das palavras escritas pela autora. Quando a forma não representa algo externo, mas um estado interno, é aí que reside sua capacidade transformadora. E, nesse livro, a leitura se torna ainda mais interessante porque, mais do que uma experiência intelectual, ela é uma experiência corporal.

E se olhássemos para o desconforto?

Não seria muito mais interessante se olhássemos para o desconforto, para a incompreensão, não como falha, mas como convite? Convite ao desconhecido, que, afinal, é a única certeza da vida.

Clarice escreve como quem pinta o abstrato. Gostando ou não da leitura — que é, sim, desafiadora — ou gostando ou não de arte abstrata, Clarice nos confronta porque bagunça nossas referências. Nos faz perder o controle do entendimento e abre margem para pensarmos de forma bagunçada em uma estrutura que não esperamos encontrar essa confusão: em um livro. Clarice nos faz entender que, assim como a vida, a arte existe para ser sentida, mais do que compreendida.


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autoria

Foto de Luiza Adas

Luiza Adas

Colunista

É comunicadora e pesquisadora de arte, formada em Relações Públicas e pós-graduada em Teoria e Crítica da História da Arte. Fundadora do perfil Museu do Agora, uma das maiores páginas de arte do Brasil,...
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