O câncer é o nome dado a um conjunto de mais de 100 doenças caracterizadas pelo crescimento desordenado de células, que podem atingir diferentes órgãos e tecidos do corpo. Em alguns casos, essas células se espalham para outras regiões, exigindo tratamentos prolongados e acompanhamento contínuo.
No Brasil, o número de diagnósticos segue elevado e reforça a dimensão do tema para a saúde pública.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa para o triênio 2023 a 2025 aponta cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano. Entre os mais incidentes estão o câncer de mama feminina, com aproximadamente 99 mil casos anuais, seguido pelos tumores de cólon e reto, com 71 mil registros, além de pulmão, com 32 mil.
Embora os avanços médicos tenham ampliado as possibilidades de tratamento e controle da doença, o impacto do diagnóstico costuma extrapolar o aspecto físico. A confirmação do câncer tende a alterar a rotina, os planos e a forma como a pessoa se percebe e se relaciona com o mundo ao redor.
Rede de apoio atua na regulação emocional ao longo do tratamento de câncer
Segundo a psicóloga Bruna Dalem, esse momento inicial costuma ser marcado por instabilidade emocional e sensação de ameaça. “O diagnóstico do câncer pode vir muitas vezes como um evento de ruptura do corpo, de vínculos, senso de vida e futuro, por exemplo. É um momento de muitas incertezas e ameaça a vida. A pessoa fica com uma sensação de perda de controle, em contato com a possibilidade de morte e isso gera medo, um corpo em estado de alerta e hiperativado”, explica.
Esse estado de alerta pode se estender ao longo de exames, consultas e tratamentos, influenciando o bem-estar emocional do paciente. Por isso, além do acompanhamento médico, o cuidado precisa considerar também os aspectos psicológicos e relacionais envolvidos nesse processo.
Durante o tratamento oncológico, o paciente precisa lidar com mudanças físicas, efeitos colaterais, reorganização da rotina e incertezas. Nesse contexto, a presença de vínculos consistentes contribui para sustentar o enfrentamento diário da doença. A rede de apoio pode envolver familiares, amigos, cuidadores e profissionais de saúde, desde que exista escuta e disponibilidade emocional.
A qualidade do vínculo importa
Para Bruna, o cuidado afetivo não está relacionado ao número de pessoas ao redor do paciente, mas à forma como essas relações se constroem ao longo do tempo. “Quando falamos de vínculo afetivo, falamos de cuidado. Esse cuidado não tem a ver com quantidade de pessoas, é mais sobre a qualidade do vínculo. O vínculo tem uma função no tratamento, pois através dele podemos cocriar um ambiente de segurança emocional e uma sustentação para que o paciente consiga atravessar as experiências avassaladoras que estão acontecendo e as que estão por vir”, afirma.
Na prática, essa sustentação aparece na presença emocional ao longo do tratamento. “O vínculo afetivo possibilita que a pessoa não esteja só e que ela tenha mais recursos para atravessar momentos difíceis sem entrar em uma solidão psíquica”, acrescenta. Nesse contexto, a rede de apoio ajuda a oferecer previsibilidade em meio a um cenário marcado por incertezas. “A rede de apoio torna-se então o continente emocional que sustenta o paciente para que ele possa atravessar esse momento tão desafiador sem colapsar em solidão”, diz.
Do ponto de vista da saúde mental, a rede de apoio também exerce influência direta sobre a forma como o paciente regula suas emoções diante do diagnóstico. “O vínculo tem uma função protetiva contra a depressão e ansiedade porque ele atua como regulador do sistema nervoso. Então, ele ajuda a pessoa a se acalmar para que ela consiga sustentar a dor do diagnóstico sem se fragmentar”, esclarece a psicóloga.
Esse cuidado se expressa em ações cotidianas, como acompanhar consultas, auxiliar em tarefas práticas ou manter disponibilidade para escuta. “A rede de apoio e de cuidado deve fornecer segurança, previsibilidade e base segura, não importa o que aconteça”, completa.
Isolamento, limites e o cuidado com quem cuida de um paciente com câncer
Ao longo do tratamento, é comum que alguns pacientes se afastem temporariamente do convívio social. Esse comportamento nem sempre indica rejeição à ajuda, mas pode estar relacionado à maneira como cada pessoa tenta lidar com a dor emocional. “Quando o paciente se isola não quer dizer que ele não queira ajuda. Às vezes ele está se protegendo, pois a dor é muita grande. Logo, precisamos enxergar o isolamento como uma defesa e respeitar”, orienta Bruna.
Respeitar esse movimento, no entanto, não significa se ausentar. “Isso não significa desaparecer, mas entender o limite e respeitar, mostrando que está lá para o outro. É deixar claro que está lá para quando o outro precisar”, destaca. Ela salienta que a presença pode ser sentida de diferentes formas. “É importante ressaltar que existem várias formas de sentir a presença do outro, como um olhar cuidadoso, uma mensagem no dia ou um gesto de cuidado”.
Além disso, apoiar não significa tentar eliminar o sofrimento. “A rede de apoio não é sobre impedir o sofrimento, é estar lá para e com o paciente. É perceber o que o outro precisa. Às vezes só falar ‘eu sinto muito’ a pessoa se sente vista na dor”, aconselha Bruna.
A rede de apoio também deve procurar ajuda psicológica
Outro aspecto que merece atenção é o desgaste emocional de quem acompanha o tratamento de perto. Familiares e cuidadores costumam assumir múltiplas funções, como reorganizar a rotina da casa, acompanhar consultas, lidar com burocracias médicas e oferecer suporte emocional enquanto administram os próprios medos.
Esse acúmulo tende a acontecer de forma silenciosa. “Quem cuida também precisa ser cuidado. Muitas dessas pessoas também vivem em estado de alerta, sentindo medo e impotência, e sustentando emoções que não se permitem expressar e até se colocando em segundo plano”, pontua.
Com o tempo, esse desgaste pode se manifestar em sinais físicos e emocionais que nem sempre são imediatamente associados ao cuidado. “Alguns sinais são cansaço extremo e constante, irritabilidade frequente, dificuldade de dormir e sensação de estar sempre no automático”, detalha Bruna. Esses sinais, inclusive, indicam que a rede de apoio também precisa de espaço para elaborar o que está vivendo.
Nesse contexto, buscar acompanhamento psicológico não significa se afastar do paciente, mas criar condições para continuar presente de forma mais saudável. “Ao se cuidar, você preserva a si e preserva o vínculo e o outro. Buscar ajuda psicológica é importante para ter um espaço para falar da sua dor e está tudo bem. Isso não deve ser invalidado porque o outro que está com o diagnóstico”.
Portanto, reconhecer limites, dividir responsabilidades e contar com apoio profissional ajuda a reduzir o impacto emocional tanto para quem recebe o diagnóstico quanto para quem acompanha de perto. Diante de sintomas persistentes ou suspeitas, a orientação é procurar um médico para avaliação. Em casos de diagnóstico confirmado, o cuidado psicológico, integrado ao tratamento médico, é fundamental para que pacientes e familiares vivenciem essa fase com mais informação, escuta e sustentação emocional.



