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O câncer de mama é tradicionalmente associado a mulheres cisgênero, mas também pode afetar mulheres trans, especialmente aquelas que fazem uso prolongado de terapia hormonal com estrogênio. Embora o tema venha ganhando mais espaço nas discussões sobre saúde, as evidências científicas sobre o risco e o rastreamento nessa população ainda estão em construção.

Um estudo publicado na revista The BMJ em 2019 apontou que mulheres trans em terapia hormonal por uma média de 18 anos apresentaram risco 46 vezes maior de desenvolver câncer de mama em comparação com homens cisgênero. O número pode parecer expressivo, mas precisa ser interpretado com cautela, explica Ana Beatriz Albuquerque Tavares, mastologista do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE) e da Rede D’Or.

“Embora a razão de risco 46 vezes maior pareça enorme, o risco absoluto continua extremamente baixo porque a incidência base de câncer de mama em homens cisgênero é muito baixa, cerca de 0,1% ao longo da vida”, diz Tavares. “Na prática, isso significa que o risco das mulheres trans em hormonioterapia aumenta em relação aos homens cis, mas ainda é menor do que o das mulheres cis, cujo risco de vida é de cerca de 12%”.

Segundo a médica, é importante comunicar esse dado de forma clara aos pacientes, evitando interpretações alarmistas. “O aumento é real, mas ainda há incerteza estatística, pois os estudos envolvem populações pequenas e acompanhamentos de tempo limitado”.

Principais fatores de risco nas mulheres trans

O uso contínuo de estrogênio é um dos principais fatores de aumento de risco, embora os dados específicos sobre mulheres trans ainda sejam limitados. “Faz sentido supor que maior duração e maior exposição estrogênica elevem o risco por analogia com o que já observamos em terapias hormonais de mulheres cis. Mas não há um limite de tempo bem definido para intensificar o rastreamento”, afirma Tavares.

Em geral, a duração da terapia acima de cinco anos é considerada um marcador de atenção. A American College of Radiology (ACR) recomenda que mulheres trans em uso de hormonioterapia estrogênica por mais de cinco anos iniciem o rastreamento mamográfico aos 40 anos ou após cinco anos de tratamento, o que ocorrer primeiro. “Para quem tem fatores de alto risco, como mutações genéticas ou histórico familiar de câncer de mama, o rastreamento pode começar entre 25 e 30 anos, com repetição anual”, orienta a mastologista. Já para mulheres trans com menos de cinco anos de hormonioterapia e risco médio, a recomendação é manter a vigilância clínica sem necessidade de exames de imagem específicos.

A importância da avaliação individual

Cada caso deve ser analisado de forma individualizada, levando em conta variáveis como tempo de hormonioterapia, anatomia, histórico familiar, obesidade, consumo de álcool, tabagismo e densidade mamária. “A individualização é muito importante, talvez ainda mais do que entre mulheres cis, porque os dados são limitados e há mais variáveis envolvidas”, destaca a mastologista.

O autoexame pode ser um instrumento útil para o autoconhecimento corporal, mas não substitui a avaliação médica nem os exames de imagem. “O tecido mamário em mulheres trans pode ter características diferentes conforme o tempo de hormonioterapia ou a presença de implantes”, reforça a especialista.

Entre os principais desafios para o rastreamento estão a falta de protocolos amplamente conhecidos, barreiras emocionais e o medo de estigmatização. Além disso, muitas vezes o sistema de saúde ainda não está preparado para acolher pessoas trans de forma adequada. Isso pode atrasar diagnósticos e comprometer o cuidado preventivo.

Caminhos para uma saúde mais inclusiva

Avançar no cuidado do câncer de mama em mulheres trans passa por ampliar o acesso, investir em formação profissional e fortalecer a comunicação entre médicos e pacientes. A prevenção não deve ser guiada pelo medo, mas pela confiança em uma rede de saúde que acolhe e informa. Cada consulta, exame e conversa pode ser uma oportunidade de construir um cuidado mais humano e inclusivo em que todas as mulheres, em sua diversidade, se sintam vistas, ouvidas e seguras para cuidar de si.


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Foto de Laís Siqueira

Laís Siqueira

Jornalista

Jornalista e pós-graduada em Marketing, gosto de pesquisar, descobrir histórias e traduzir conceitos complexos em conteúdos que façam sentido. Sou movida pela curiosidade e pelo interesse em explorar o universo...
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