As ondas de calor têm se tornado mais frequentes em diversas regiões do Brasil. Nesses períodos, a preocupação costuma girar em torno do desconforto térmico e da dificuldade para dormir. Porém, há um aspecto que merece atenção especial: os impactos das altas temperaturas na saúde do coração, principalmente entre pessoas com hipertensão e idosos.
Quando os termômetros permanecem elevados por vários dias, o organismo precisa se adaptar para manter a temperatura interna em níveis seguros. Esse ajuste envolve mudanças no sistema circulatório que, em determinadas condições, podem aumentar o risco de complicações cardiovasculares. Para quem já convive com pressão alta ou alguma doença cardíaca, o cenário exige cuidados adicionais.
Segundo o cardiologista Marcelo Maranhão, as ondas de calor impõem uma sobrecarga ao organismo. “Em situações de calor intenso, o corpo promove uma vasodilatação para dissipar a temperatura, o que reduz a pressão arterial e obriga o coração a bater mais rápido para manter o fluxo aos órgãos vitais”, explica.
De acordo com o especialista, esse mecanismo de compensação, que é natural em pessoas saudáveis, pode se tornar um fator de risco em quem já tem doença cardiovascular. “Para quem tem hipertensão ou insuficiência cardíaca, esse esforço contínuo pode funcionar como uma atividade física moderada e prolongada, aumentando o risco de arritmias e até infarto.” Em outras palavras, mesmo em repouso, o coração pode trabalhar acima do habitual em dias muito quentes.
Como o calor extremo afeta o sistema circulatório
Para compreender os riscos, é importante observar como o corpo reage ao aumento da temperatura ambiente. O organismo dispõe de mecanismos de regulação térmica que entram em ação rapidamente para evitar superaquecimento.
Um dos principais é a dilatação dos vasos sanguíneos próximos à pele, processo que facilita a liberação de calor por meio do suor. Esse ajuste ajuda a resfriar o corpo, mas pode desestabilizar a pressão arterial em pessoas mais vulneráveis.
Quando há queda da pressão, o coração acelera para manter a circulação adequada ao cérebro, rins e demais órgãos vitais. Esse esforço adicional pode ser mal tolerado por quem já apresenta histórico de doença cardiovascular.
Além disso, medicamentos anti-hipertensivos, como vasodilatadores e diuréticos, podem intensificar os efeitos do calor sobre a pressão. Tontura, fraqueza, visão turva e desmaios tendem a surgir com mais facilidade. Entre idosos, isso aumenta o risco de quedas e fraturas, eventos que frequentemente desencadeiam outras complicações clínicas.
Maranhão ressalta que o estresse térmico pode se instalar de forma silenciosa, sobretudo quando os dias quentes se prolongam. “Nosso corpo possui um termostato biológico eficiente, mas ele tem limite. Em temperaturas muito altas, o mecanismo do suor pode falhar se houver alta umidade ou desidratação.”
Nesse contexto, ele alerta que os efeitos podem ser mais relevantes em pacientes com hipertensão. “O sangue é desviado para a pele na tentativa de resfriar o organismo, o que pode deixar o coração trabalhando com menor volume circulante e pressão oscilante. Esse estresse acelera o consumo de energia do músculo cardíaco.”
Diante desse quadro, monitorar a pressão com mais frequência durante picos de temperatura é uma medida recomendada, especialmente para quem já realiza acompanhamento cardiológico.
Desidratação e risco cardiovascular na terceira idade
Outro ponto que exige atenção é a perda de líquidos. Em dias muito quentes, o organismo elimina água e sais minerais por meio do suor. Quando essa reposição não ocorre de maneira adequada, os impactos vão além da sede.
Na população idosa, o risco é maior porque o mecanismo de percepção da sede tende a se tornar menos eficiente com o envelhecimento. O cérebro pode demorar mais para sinalizar a necessidade de ingestão de líquidos. Assim, a desidratação pode avançar mesmo sem que a pessoa perceba.
Esse quadro favorece a hemoconcentração, condição em que o sangue se torna mais espesso devido à redução do volume de água circulante. Maranhão chama atenção para esse efeito. “Com o suor excessivo e a perda de líquidos, o sangue torna-se mais viscoso, o que facilita a formação de trombos e aumenta a incidência de acidentes vasculares cerebrais e crises hipertensivas. O alerta é maior para quem usa diuréticos, pois a dosagem habitual pode levar a desidratação severa durante o calor.”
Quando a circulação ocorre com maior viscosidade, cresce a probabilidade de obstrução dos vasos, o que pode contribuir para infarto e acidente vascular cerebral, especialmente em pessoas com fatores de risco já estabelecidos.
Por isso, a recomendação é não esperar a sede aparecer para ingerir líquidos. Manter uma rotina de hidratação ao longo do dia é particularmente importante entre idosos que vivem sozinhos ou apresentam limitações cognitivas.
Calor nas cidades, sono e estresse
Além das alterações fisiológicas, o ambiente urbano pode intensificar os efeitos das altas temperaturas sobre o sistema cardiovascular. Áreas com grande concentração de asfalto, concreto e pouca arborização tendem a registrar temperaturas mais elevadas, fenômeno conhecido como ilhas de calor.
Nesses locais, o resfriamento noturno ocorre de forma mais lenta. Como consequência, muitas pessoas enfrentam noites mal dormidas em ambientes quentes e pouco ventilados. A privação de sono está associada à elevação dos níveis pressóricos e ao aumento da liberação de hormônios relacionados ao estresse.
Para quem tem hipertensão, a combinação de calor persistente, sono insuficiente e irritabilidade pode dificultar o controle da pressão. O estresse térmico favorece a liberação de cortisol, hormônio que influencia diretamente a frequência cardíaca e os níveis de pressão arterial.
Diante desse cenário, algumas medidas ajudam a reduzir riscos. Evitar exposição ao sol nos horários de maior intensidade, manter ambientes ventilados, reforçar a hidratação e acompanhar regularmente a pressão são atitudes recomendadas. Também é importante conversar com o médico sobre possíveis ajustes na medicação durante períodos mais quentes.
Com a tendência de temperaturas elevadas ao longo do ano, a atenção à saúde cardiovascular durante esses períodos se torna ainda mais necessária. Informação, monitoramento adequado e acompanhamento médico contribuem para reduzir complicações, especialmente entre idosos e pessoas com hipertensão.



