O burnout, associado ao esgotamento físico e emocional provocado pelo trabalho, tem se refletido diretamente nos índices de afastamento profissional no Brasil. Segundo dados do Ministério da Previdência Social, as licenças concedidas por esse motivo cresceram quase 500% entre 2021 e 2024.
Ao mesmo tempo, há indícios de que os números não refletem toda a dimensão do problema. O burnout é um transtorno de difícil identificação e, muitas vezes, aparece associado a quadros como ansiedade e depressão, o que contribui para a subnotificação. Ainda assim, a tendência de crescimento é consistente e acompanha um aumento mais amplo dos afastamentos relacionados à saúde mental no país.
A escalada dos afastamentos e o impacto no trabalho
Ainda de acordo com o Ministério da Previdência Social, os registros de afastamento por burnout passaram de pouco mais de 800 casos em 2021 para quase 5 mil em 2024. O crescimento ocorreu de forma contínua e se manteve em 2025, com milhares de novos afastamentos registrados apenas no primeiro semestre do ano.
Esse avanço está relacionado a diferentes fatores. Por um lado, há maior visibilidade dos temas ligados à saúde mental, o que leva mais trabalhadores a buscar atendimento. Por outro, o próprio ambiente de trabalho se tornou mais exigente, com metas elevadas, jornadas prolongadas e dificuldade de desconexão fora do expediente.
Outro ponto relevante é que os dados consideram apenas trabalhadores com vínculo formal e contribuição ao INSS. Profissionais informais, autônomos ou desempregados ficam fora das estatísticas, mesmo quando apresentam sintomas de esgotamento profissional, o que limita o alcance dos números divulgados.
O que é burnout e por que ele acontece
O burnout é caracterizado por um estado de esgotamento físico e emocional causado pela exposição prolongada a situações de estresse ocupacional. A condição está associada a fatores como excesso de demandas, pressão constante por resultados, falta de reconhecimento, pouca autonomia e ambientes organizacionais desestruturados.
Diferentemente do estresse pontual, o burnout se desenvolve de forma gradual. Inicialmente, o profissional pode manter o desempenho, mas, com o tempo, passa a apresentar queda de produtividade, distanciamento emocional e sensação persistente de exaustão. Por isso, o diagnóstico costuma ocorrer quando o quadro já está em estágio mais avançado.
Desde 2023, o burnout é reconhecido oficialmente no Brasil como uma doença relacionada ao trabalho. A partir desse marco, o tema ganhou respaldo legal, garantindo direitos previdenciários específicos aos trabalhadores afetados. Além disso, o reconhecimento reforçou a responsabilidade das empresas na prevenção de riscos psicossociais. Nesse contexto, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou a exigir o mapeamento e a gestão desses riscos no ambiente de trabalho.
Principais sinais e sintomas do burnout
Os sinais do burnout variam de pessoa para pessoa, mas alguns sintomas são recorrentes. Entre os mais comuns estão cansaço extremo, mesmo após períodos de descanso, dificuldade de concentração, lapsos de memória e sensação de sobrecarga. Alterações no sono, irritabilidade e desmotivação também aparecem com frequência.
Com o avanço do quadro, podem surgir sintomas físicos, como dores de cabeça, problemas gastrointestinais e mudanças no apetite. Do ponto de vista emocional, o trabalhador pode apresentar afastamento das atividades profissionais, perda de interesse pelo trabalho e sentimentos de inadequação. Esses sinais não devem ser ignorados. Quando persistem por semanas ou meses, indicam a necessidade de avaliação profissional.
Como é feito o diagnóstico e o tratamento
O diagnóstico do burnout é clínico e deve ser realizado por profissionais de saúde, como médicos ou psicólogos. A avaliação considera, por exemplo, o histórico do paciente, os sintomas apresentados e a relação direta com o ambiente de trabalho. Em muitos casos, é necessário diferenciar o burnout de outros transtornos mentais, como depressão e ansiedade, que podem coexistir.
O tratamento envolve uma combinação de abordagens. O afastamento temporário do trabalho pode ser indicado para reduzir a exposição aos fatores de estresse. Além disso, o acompanhamento psicológico ajuda na reorganização da rotina, na identificação de gatilhos e no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento.
Em alguns casos, o uso de medicação pode ser recomendado. Paralelamente, mudanças no ambiente de trabalho são parte importante do processo de recuperação, como ajustes na carga horária, revisão de metas e melhoria da comunicação interna.
Falar sobre burnout é, antes de tudo, abrir espaço para escuta. Os números ajudam a dimensionar o problema, mas não dão conta das histórias individuais, do cansaço silencioso e da dificuldade de muitos trabalhadores em admitir que não estão bem. Reconhecer os sinais, buscar ajuda e falar sobre saúde mental no trabalho não é sinal de fraqueza, mas de cuidado consigo mesmo.
Ao mesmo tempo, o enfrentamento do burnout não pode recair apenas sobre o indivíduo. Empresas, gestores e políticas públicas têm um papel importante na construção de ambientes mais sustentáveis, onde o trabalho não seja sinônimo de adoecimento.
Se você se identificou com alguns dos sinais descritos ao longo do texto, saiba que não está sozinho. Procurar apoio profissional, conversar com pessoas de confiança e repensar limites pode ser o início de um caminho de recuperação e equilíbrio.



