Falar de saúde mental exige coragem — e, ao mesmo tempo, delicadeza. Na história da arte brasileira, muitos artistas transformaram suas vulnerabilidades em linguagem poética, abrindo caminhos para conversas mais honestas sobre o que significa existir com todas as nossas camadas, inclusive as que doem. Hoje, trago 3 nomes de artistas para compreender como a arte pode nos ajudar a olhar para dentro — e para o outro — com mais empatia.
1. Artur Bispo do Rosário
Impossível falar sobre saúde mental na arte sem mencionar Artur Bispo do Rosário. Antes de ser internado, Bispo serviu por um período na Marinha, uma vida regida por disciplina e hierarquias. Depois de passar por episódios que a psiquiatria da época não soube compreender, foi internado por décadas em instituições psiquiátricas, onde permaneceu grande parte da vida.
Durante muito tempo, seu gesto criativo foi ignorado ou tratado apenas como sintoma. Seus acúmulos de objetos, seus bordados minuciosos e seus estandartes, feitos com tudo o que encontrava — restos, tecidos, fios, pedaços do cotidiano — eram vistos como desvios. Até que pesquisadores e artistas começaram a reconhecer ali algo maior: expressões profundas de um pensamento estético complexo, de uma sensibilidade radical, de alguém que reorganizava o mundo para não desaparecer dentro dele.
Bispo abriu caminhos para que, hoje, possamos olhar para a arte a partir daquilo que existe de mais profundo em nós: nossas memórias, nossas dores, nossas crenças, nossas tentativas de dar forma ao que não cabe em palavras. Ele pegava o que o mundo descartava e devolvia como poesia, costurando no silêncio das instituições gritos de uma nova possibilidade de existir.
2. Yayoi Kusama
Muitos falam sobre a obra de Yayoi Kusama como se fosse apenas explosão de cor, fantasia e alegria, mas, por trás de sua produção vibrante, existe uma trajetória marcada por experiências difíceis, vulneráveis e profundamente humanas. Uma das artistas mais famosas do mundo, Kusama vive, por escolha própria, em uma instituição psiquiátrica em Tóquio há mais de 40 anos. É ali, onde também tem seu espaço de ateliê, que ela transforma alucinações em arte.
Kusama cresceu no Japão durante a Segunda Guerra Mundial, e essa vivência deixou marcas profundas. Ainda criança, testemunhou destruição, escassez e incerteza — imagens que se misturaram às alucinações visuais com bolas que ela já tinha desde muito jovem. O resultado foi uma sensação constante de perder os limites entre si e o mundo ao redor. Essa experiência, mais tarde, se tornaria a base das obsessões repetitivas que vemos em seus pontos, suas redes infinitas e suas instalações imersivas.
É como se ela se dissolvesse nesse mundo que ela mesma criou. A repetição, para Kusama, nunca foi apenas estética: foi um gesto de sobrevivência. Seus pontinhos, suas salas infinitas e seus padrões intermináveis são tentativas de transformar um caos interno em forma, luz e ritmo. Uma busca por organizar o que era insuportável, dar contorno ao trauma e encontrar um espaço de proteção dentro da própria mente.
3. Tracey Emin
Tracey Emin é um dos nomes mais marcantes da arte contemporânea mundial. O motivo? Em vez de suavizar suas experiências, ela as lança ao mundo sem filtros — aborda depressão, solidão, abuso, desejo, caos interno. Tudo aquilo que tantas vezes escondemos, Emin transforma em linguagem. Desde o início da carreira, sua obra é construída a partir de memórias que a atravessam de maneira intensa. Ela faz da própria vida matéria artística, como se cada sentimento pudesse ser redesenhado para ganhar novas formas.
Um de seus trabalhos mais emblemático é My Bed: um quarto real, com garrafas vazias, lençóis sujos, roupas amontoadas, remédios e outros objetos… Nada ali é metafórico. É, simplesmente, a vida como ela se apresenta pelos olhos da artista. Ao colocar esse cenário íntimo em um museu, Emin desloca o que é privado para o espaço público e convida o mundo a encarar o que normalmente preferimos varrer para debaixo do tapete.
Não há glamour no sofrimento, há verdade. E, para ela, essa verdade é um ato de coragem. Tracey Emin revela que a saúde mental pode ser um campo de batalha, mas também um território de honestidade. Suas obras lembram que admitir fragilidades não nos torna menores — ao contrário, amplia nossa capacidade de existir com profundidade.



