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Esse título também poderia ser uma pergunta: o que a arte nos ensina sobre presença?

Tenho pensado muito sobre como, em meio a tantas distrações, notificações e relações mediadas por telas, estar verdadeiramente presente se tornou um exercício difícil de ser praticado. E talvez tenha sido justamente dessa inquietação que nasceu o Clube da Arte.

O Clube da Arte é um projeto que criei e que funciona como um clube do livro — mas para amantes da arte. Todo mês, um tema. Dois encontros. E uma investigação: como a arte nos ajuda a refletir sobre as questões que atravessam nossas vidas. (Spoiler: é, sem dúvidas, o projeto mais incrível que já criei). Mais do que um clube de encontros, nos tornamos um ecossistema. Uma comunidade extremamente engajada, onde mergulhamos na arte a partir da presença.

Quando pensei em criar o projeto, o que mais me movia era justamente isso: viver a presença na arte. Eu amo o poder do digital e reconheço como ele me permite ecoar minha voz para pessoas que talvez eu nunca conhecesse sem ele. Mas o desejo de encontrar pessoas de carne e osso — pessoas que, com olhares delicados e potentes, pudessem me ajudar a ver a arte com mais profundidade — foi o que me impulsionou a tirar essa ideia do papel.

Nessas idas e vindas a ateliês, galerias e museus com o Clube da Arte, visitamos o ateliê da artista olfativa Karola Braga. Pois é: uma artista que trabalha com cheiros. Ela cruza ciência, história e memória para criar fragrâncias que nos transportam para situações, pessoas, lugares e sentimentos. Seu trabalho desloca o protagonismo do olhar — sentido ao qual estamos tão condicionados — e nos convoca a sentir com o corpo inteiro. Sobretudo, com presença.

Observar arte é desacelerar com presença

Foi ao sair dessa visita que percebi algo óbvio, mas que raramente elaboramos: a arte exercita o nosso estado de presença. Interagir com a arte não é apenas olhar. É perceber o próprio corpo diante dela. É sentir o cheiro de um lugar, a temperatura do espaço, as texturas, os sons, a maneira como nossas emoções se reorganizam diante de uma cor ou de uma forma.

Em um tempo em que tudo é fugaz e efêmero, em que nem sempre precisamos nos deslocar para conhecer alguém ou alguma coisa, a arte nos lembra que há experiências que o online simplesmente não substitui. Estar ali é irreproduzível.

Observar arte é desacelerar — ao mesmo tempo em que permitimos que outros sentidos despertem na nossa própria pele. É suspender, ainda que por instantes, a velocidade do mundo para simplesmente sentir.A arte não oferece respostas prontas. Ela inaugura perguntas — inclusive aquelas que nem sabíamos que precisávamos fazer. E é justamente esse mistério que mais me fascina.

É na presença que a arte acontece. E talvez por isso ir a uma exposição, atravessar a cidade para visitar um museu ou se permitir estar diante de uma obra de arte, hoje, seja mais do que um gesto banal. É uma escolha política. Uma escolha por desacelerar, por profundidade em um tempo que nos quer rasos. A arte nos exige por inteiro. Sejamos.


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autoria

Foto de Luiza Adas

Luiza Adas

Colunista

É comunicadora e pesquisadora de arte, formada em Relações Públicas e pós-graduada em Teoria e Crítica da História da Arte. Fundadora do perfil Museu do Agora, uma das maiores páginas de arte do Brasil,...
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