Um estudo apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), realizado na Alemanha, revelou que a amamentação pode ajudar a reduzir o risco de um dos tipos mais agressivos de câncer de mama. Pesquisadores australianos observaram que mulheres que amamentaram apresentaram maior presença de células imunológicas do tipo CD8⁺ T, responsáveis por reconhecer e eliminar células anormais, nas glândulas mamárias. Essa proteção, segundo o estudo, pode durar por décadas.
A pesquisa, publicada na revista Nature, analisou amostras de tecido mamário saudável de mais de 260 mulheres, além de dados clínicos e exames de imagem de mais de mil pacientes com diagnóstico de câncer de mama. A partir dessa combinação de informações, os cientistas identificaram que as mulheres que amamentaram tinham mais células CD8⁺ T no tecido mamário e, consequentemente, uma resposta imune mais ativa e duradoura.
Como o corpo cria essa proteção na amamentação para minimizar as chances de câncer de mama
As células CD8⁺ T funcionam como uma linha de defesa do organismo. Elas reconhecem possíveis alterações nas células e agem para impedir que se transformem em tumores. De acordo com os pesquisadores, durante a gestação e o período de amamentação, o sistema imunológico é estimulado de forma intensa, o que favorece o surgimento e a permanência dessas células protetoras.
Outro ponto que chamou a atenção dos pesquisadores foi o tempo de duração dessa resposta imunológica. As análises indicaram que as células CD8⁺ T permanecem nas mamas por mais de 30 anos após a gestação. Essa memória imunológica pode ser o motivo pelo qual o efeito protetor da amamentação se estende por tanto tempo.
Além disso, os dados de pacientes mostraram que mulheres que amamentaram antes de receber o diagnóstico de câncer de mama triplo-negativo apresentaram maior taxa de sobrevivência. Esse tipo de câncer costuma ter evolução rápida e não responde a terapias hormonais, o que torna os tratamentos mais complexos. Por isso, a descoberta desperta interesse na comunidade científica e pode abrir caminho para novas estratégias preventivas.
Implicações para a saúde da mulher
Os resultados, em resumo, reforçam a importância de políticas públicas que incentivem a amamentação e ofereçam suporte às mulheres durante o pós-parto. Ter acesso à informação, ao acompanhamento médico e a ambientes adequados pode contribuir, por exemplo, para que mais mães consigam manter o aleitamento pelo tempo recomendado.
Ao mesmo tempo, o estudo amplia a compreensão sobre o funcionamento do corpo feminino e mostra como determinados processos biológicos podem influenciar a saúde a longo prazo. Ainda são necessários novos estudos para entender com precisão como as células CD8⁺ T mantêm essa proteção e se é possível reproduzir esse efeito em terapias preventivas.
A pesquisa, no entanto, já aponta um caminho promissor: amamentar pode ajudar não apenas no início da vida, mas também na prevenção de doenças que podem surgir muitos anos depois.



